Um caminhão à sua frente

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Dimas Barbosa Araujo (*)

 Ah…o verão! Dias quentes, ensolarados e o que é melhor, um dia de folga. Pensando em tudo isso e já imaginando a areia, a água do mar, a oportunidade de espantar um pouco do branco escritório. Você não tem dúvidas, pega o carro, já devidamente revisado, e se põe na estrada rumo às maravilhas que está prestes a encontrar. É só deslizar umas poucas horas pelo asfalto.

Então, de repente, um choque de realidade: bem à sua frente um baita caminhão, daqueles grandes mesmo. O pior, na subida. A velocidade cai para irritantes 30km por hora e a praia fica mais distante a cada segundo que passa. Você não pode ultrapassar porque é responsável e sabe que naquele local, além de proibido é extremamente perigoso. À medida em que a temperatura sobe dentro do carro, sem ar condicionado, a paciência míngua. E atire a primeira pedra quem, em situação parecida, jamais xingou quem inventou o caminhão e o motorista à frente, até a quinta geração.

Sem ter a pretensão de tentar que você se acalme numa hora dessas puxo um dedo de prosa para ajudar a passar o tempo. Conto que quando eu era criança, ouvia na escola que o Brasil estava progredindo, tinha um “presidente bossa nova”, indústria automobilística e estradas. Anos depois, em época de regime militar, ouvia que as estradas eram o elo da integração nacional. Como exemplo a  Belém Brasília e a Transamazônica.

Isso ajudou a criar o que o grande especialista em transportes, Geraldo Vianna, chamou de “o mito do rodoviarismo brasileiro” em livro lançado em 2007. O mito é o de que o Brasil é um país rodoviarista, porque aqui só se investe em rodovias e nada em ferrovias, navegação fluvial, portos etc. E é por que isso é um mito; assim como o Boitatá ou o Lobisomem.

O livro mostra, que mesmo sendo o quarto maior país do mundo em extensão territorial e população, temos menos rodovias pavimentadas que países muito menores como o Reino Unido que caberia trinta e cinco vezes no território brasileiro. Pois, o Reino Unido tem quase duas vezes mais rodovias pavimentadas que o Brasil. E você acreditaria se eu dissesse que temos extensão ferroviária maior que o México e maior extensão de hidrovias que os Estados Unidos? Pois é verdade, temos sim.

Está certo que a maioria números são de estatísticas coletadas entre 2004 e 2007. Mas, cá entre nós, mesmo que tivéssemos melhorado muito nos últimos nove ou dez anos (o que você e eu sabemos que não aconteceu), nossa situação ainda seria vexatória. Ou seja, analisando bem, o Brasil não é um País rodoviarista, nem ferroviarista, nem de vocação marítima, nem coisa nenhuma. Investimos pouco e mal em tudo o que de respeito a infraestrutura de transporte. E o caminhão acaba assumindo responsabilidades que não são suas, desbravando rotas, entrando em lugares que não são alcançados por ninguém para que nada falte à população. Quando se diz que “sem caminhão o Brasil para” ou “se tá na mão veio de caminhão”, ´é a pura expressão da verdade.

De repente o caminhão desloca-se ligeiramente e liga a lanterna para a direita. O motorista está sinalizando que enxerga à frente e você pode passar com segurança. Como a faixa pintada no asfalto não é contínua, aliviado, você ultrapassa. Agora sim, você tem caminho livre a frente para desfrutar das maravilhas do litoral. Água, sol, amigos, cerveja. Cerveja? Pode ficar tranquilo, não vai faltar: aquele caminhão que você acaba de ultrapassar está levando a reposição.

(*) Dimas Barbosa Araujo é Diretor executivo da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística – NTC&Logística

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