Rosas de Ouro contará a vida do caminhoneiro no carnaval

As dificuldades, as emoções e a importância dos profissionais das estradas serão o tema da escola de samba do grupo de elite de São Paulo. Confira a entrevista com o carnavalesco André Machado

As dificuldades, as emoções e a importância dos profissionais das estradas serão o tema da escola de samba do grupo de elite de São Paulo.

A Rosas de Ouro é uma das principais escolas de samba de todo o Brasil. Conhecida nacional e internacionalmente, a escola que veste azul, rosa e branco irá homenagear os caminhoneiros e caminhoneiras no carnaval deste ano.

A partir do samba enredo “Pelas estradas da vida, sonhos e aventuras de um herói brasileiro”, o carnavalesco André Machado preparou as alas para contar sobre a vida no tapete negro, destacando as emoções e dificuldades vividas pelos trabalhadores da boleia.

Chico da Boleia esteve em São Paulo e conferiu os detalhes do ensaio técnico da Rosas de Ouro no sambódromo. Confira com exclusividade a entrevista com André Machado.

Chico da Boleia: Estamos visitando São Paulo, capital bandeirante, de aonde vamos repercutir o carnaval da escola de samba ”Rosas de Ouro”. E porque vamos repercutir o pessoal da escola de samba? Porque a fina estampa do samba, a escola “Rosas de Ouro” vai homenagear a nossa categoria, o nosso dia-a-dia. Vamos conversar com quem idealizou o enredo, que deu base ao samba-enredo André Machado, o carnavalesco André Machado. Onde você foi buscar inspiração para o tema?

André Machado: Quando a escola aceitou o desafio, logo de início eu fiquei temeroso com a questão plástica. Porque a vida do caminhoneiro não te dá subsídios plásticos a ponto de uma escola, que está acostumada com luxo, fazer um carnaval. Então eu tive que ser o mais original possível sem perder as características da escola de samba que é o luxo, o brilho e a grandiosidade.

Eu dividi a escola em cinco setores e o primeiro setor da escola tinha que começar com a religião, representando o cara que larga a sua família e se agarra na fé pra poder enfrentar todas as adversidades nas estradas. Então na hora de pensar em fantasias e em alegorias, eu pensei muito na figura de São Cristóvão, que é o padroeiro do motorista, e na figura de Nossa Senhora, para desenvolver o primeiro setor da escola. Depois, em minhas pesquisas, eu comecei a descobrir trechos da vida do caminhoneiro que plasticamente você consegue desenvolver de uma forma bacana, onde as pessoas conseguem identificar de forma imediata. As pessoas que estão no Anhembi não têm o recurso da legenda que aparece na televisão, então teriam que desenvolver fantasias que as pessoas vissem e entendessem na mesma hora em que escutassem o samba tocando na avenida.

E em nosso segundo setor nós vamos falar sobre a importância do caminhoneiro no agronegócio, porque tudo o que é produzido no campo chega até a cidade através do trabalho do caminhoneiro. Eu comecei a idealizar algumas fantasias interessantes como, por exemplo, uma fantasia que fala do horizonte de esperança, pois tem um trecho de um poema da Clarice Lispector que fala que o girassol é a esperança, porque ele está sempre procurando o sol e buscando este horizonte. Para que a flor comece a florescer e a visão que o homem do campo tem sobre o caminhoneiro é exatamente essa. Não adianta ele plantar e colher, se ele não tiver nenhuma pessoa para trazer sua esperança de ganho e levar teus produtos até à cidade. Então eu fiz essa comparação, essa analogia, e as pessoas começaram a identificar, de uma forma clara, o que a gente estava pretendendo demonstrar, fazendo com que as fantasias ficassem bonitas, originais e de fácil leitura.

O nosso terceiro setor é uma resposta do segundo. Como tudo que chega até nós é através do caminhoneiro, para que isto aconteça ele passa por muitos perigos nas estradas. No terceiro setor iremos falar exatamente isso, sobre a pressa e a imprudência por conta de prazos cada vez menores para se entregar uma mercadoria no qual, não digo a maioria, mas infelizmente, muitos caminhoneiros acabam utilizando o rebite. E nós vamos fazer um trabalho de conscientização dentro de nosso carnaval para dizer que esse não é o caminho certo. Trataremos também do tema da prostituição. Abordaremos os cabarés, porém de uma forma bem respeitosa, a fim de mostrar também que os caminhoneiros são agentes que acabam combatendo principalmente a prostituição infantil.

As pessoas acabam associando a vida de caminhoneiro com os cabarés, achando que todos os caminhoneiros fazem parte disto também. Mas isso não é verdade. Muitos são agentes que acabam sendo contra essa questão da prostituição.

Abordaremos o tema das drogas, vamos falar sobre a quantidade de pessoas que morrem nas estradas por conta de drogas e também por conta da má pavimentação das vias e sinalização falha. Tudo isso vamos contar de uma forma bem original, bem alegre, para que o desfile não fique chato.

No nosso quarto setor, falaremos de como muito os caminhoneiros começam a trabalhar cedo. Apesar de hoje a história ter mudado um pouco, muitos não tiveram a oportunidade de frequentar uma faculdade por conta disso. Pois a vida de caminhoneiro é muito árdua. Mesmo assim, eles são conhecedores da nossa cultura, porque eles viajam pelo Brasil inteiro. Talvez eles conheçam mais do Brasil do que muitas pessoas que fizeram faculdade e moram nos grandes centros. Quando eu falo de cultura do Brasil, eu me refiro ao folclore, arte.

E isto gera um gancho para o nosso outro setor da escola, onde abordaremos sobre a influência do caminhoneiro nas artes. Falaremos sobre a música sertaneja, das minisséries de televisão e do cinema também. A música mais famosa que fala do caminhoneiro, talvez seja aquela do Roberto Carlos. Com a minissérie “Carga Pesada”, que por um longo tempo foi a maior audiência da TV Globo, você percebe a importância da figura do caminhoneiro retratado nas artes.

No último setor falaremos da música sertaneja que, talvez o ritmo que mais cantou sobre a vida do caminhoneiro. É também a trilha sonora do caminhoneiro No início, é quando o caminhoneiro parte para as estradas. No último setor, vamos falar do retorno à casa, sendo abraçado pela sua família e os teus filhos. O caminhoneiro acaba se tornando um herói por conta disso, porque é ele quem traz o alimento pra dentro de casa, ele quem é o herói.

Teve uma história bem curiosa depois que a gente lançou o enredo. Um rapaz, que antes de saber sobre o nosso enredo veio para São Paulo, logo se matriculou na ala de passista da escola e quando aconteceu uma festa aqui para apresentar o enredo ele na festa começou a chorar e até me mandou uma mensagem falando: “André, eu estou muito emocionado! Muito prazer, eu sou do Sul. Vim pra São Paulo e eu estou emocionado com o que vocês vão fazer porque eu perdi meu pai ano passado, em 2016, e meu pai foi o responsável pelo estudo que eu tenho hoje. Ele pagou minha faculdade e ele morreu exatamente nas estradas. E antes da escola “Rosas de Ouro” lançar este enredo, eu vim porque sempre gostei desta. Logo o ano que é a primeira vez que eu vou sair no carnaval de São Paulo vocês vão fazer uma homenagem à classe à qual meu pai fez parte, assim como eu. Devo muito à vida de caminhoneiro, porque tudo o que tenho hoje devo a ele.”. Hoje este rapaz mora em São Paulo e vai desfilar na roseira.
A vida de caminhoneiro acaba aproximando as pessoas, como nesta simples e verdadeira história acaba aproximando as pessoas e fazendo com que se aproximem muito com o carnaval.

Chico da Boleia: Eu ouvi um trecho: ‘Êta povo festeiro’, a quem se refere?

André Machado: Refere-se exatamente aos caminhoneiros. Porque quando falamos ‘esse povo festeiro’, ele sai pelas estradas e não sabe quando ele volta. Mas quando volta, armam a maior festa com a sua volta. Então esse ‘eita povo festeiro’, ‘chora a viola’, é para ligar a festa que se faz com a volta do caminhoneiro com a questão da música sertaneja, que é a trilha sonora preferida deles. Eu acho que o samba-enredo foi muito feliz em mostrar isto de uma forma bem direta e clara.

Estamos muito felizes com este tema, outra escola que fez algo com esse tema foi a Império Serrano em 1991. É minha escola do coração. Eu assisti e a escola não foi muito feliz porque acabou perdendo pontos e acabou sendo rebaixada. Fiquei com aquilo na minha cabeça por muito tempo, porque eu era pequeno ainda e era a minha escola do coração que tinha acabado de cair do grupo especial. Eu lembro também que, mesmo com tanta dificuldade no desfile, aquele enredo me fascinou de tal maneira que eu falei a mim mesmo que se um dia eu tivesse a possibilidade de fazer um enredo sobre caminhoneiro, eu contaria de um jeito diferente. Eu lembro que eles não falaram do caminhoneiro, eles ficaram muito pautados em peças, de caminhão e falaram de combustíveis, logo, eu fui no sentido inverso.

O primeiro setor é um grupo da comunidade que vem mostrar uma procissão com a figura de São Cristóvão. Eles irão ajoelhar durante o desfile, então é um momento que talvez seja o mais emocionante, porque mostra de fato que a fé que o caminhoneiro tem a figura de São Cristóvão e de Nossa Senhora. Vai ser o carnaval da emoção. Eu acho que com esse início emotivo, este meio de conscientização e um final de alegria e explosão, temos tudo para conquistar o carnaval de São Paulo. Ficamos no ano passado em quinto lugar, mas com a história do caminhoneiro pensamos em alçar voos melhores. A estrada é muito longa, mas com o caminhoneiro iremos chegar mais rápido, vamos ser campeões do carnaval de 2018.

Chico da Boleia: Este carnaval é dedicado a quem?

André Machado: Se a gente listar as pessoas que merecem ser homenageadas, a lista seria muito grande. A presidente da escola perdeu a mãe dela há pouco tempo e talvez seja o carnaval mais emotivo para ela. Além do mais, ela já perdeu o pai dela, nessa época ela herdou a escola para dar continuidade ao trabalho do pai e há dez anos ela estava com a mãe acamada e justamente este ano, que poderia ser o mais feliz da vida dela no desfile, aconteceu de sua mãe falecer no final do ano passado. A Angelina é uma pessoa que é muito emotiva, e a todo tempo ela fala da vida do pai dela. Porque boa parte do que ela sabe de carnaval ela aprendeu com o pai, e este ano, no último carro, que ela virá e vai falar sobre a música sertaneja e ela vai ter uma casinha. Chamamos este carro de ‘Lar Dona Tereza’. A Roseira vai fazer para ela e sua mãe esta linda homenagem. Trabalhando como presidente, Angelina não pode acompanhar sua própria mãe da forma que gostaria, pois ela largou a mãe e ficou aqui 24 horas praticamente. Então este carnaval vai ser dedicado a ela e a dona Tereza.

“PELAS ESTRADAS DA VIDA: SONHOS E AVENTURAS DE UM HERÓI BRASILEIRO”

Conheça mais sobre o samba-enredo da Rosas de Ouro.

Chico da Boleia: Vamos falar com Lara Schulze, assessora da escola de samba “Rosas de Ouro”. Lara, como está repercutindo o conjunto da sociedade em meio ao transporte?

Lara Schulze: “Pelas estradas da vida: sonhos e aventuras de um herói brasileiro”, é um enredo maravilhoso, foi um presente para a escola “Rosas de Ouro”, pois estamos homenageando a vida do caminhoneiro. Foi um enredo em que no começo obtivemos um pouco da dúvida das pessoas e da imprensa sobre o tema. As pessoas diziam: “Vai falar de caminhão, mas o que de caminhão?”, porém não é de caminhão e sim da vida do caminhoneiro, pois nós estamos tratando o caminhoneiro como herói brasileiro porque ele deixa a casa por meses para seguir por este Brasil afora. É uma profissão muito difícil, porque além dos riscos, que toda profissão tem, o caminhoneiro sofre mais, muito pelo desgaste físico e emocional. Enfim, é uma profissão de amor mesmo, você tem que sair por este mundão e falar “É aqui que eu quero ganhar o mundo agora!”. Porque acho que é isso que o caminhoneiro sente quando sai, pois quando sai deixa tudo pra trás, para voltar só daqui a um tempo. São tantos percursos para acontecer e outras tantas coisas para acontecer.

Sofremos um pouco de resistência, mas quando as pessoas foram conhecendo melhor e tendo a noção real do nosso enredo, foram se apaixonando, porque é apaixonante de verdade. Além disso, nós sabemos da importância do caminhoneiro no Brasil e no mundo, logo, as pessoas foram entendendo qual foi o viés do carnavalesco e da escola, que é um viés mais emocional de contar da vida com um olhar para o lado da família, o lado da fé, o lado do trabalho, o lado das armadilhas, que são as ilusões, pequenas paixões que rolam pelo caminho por conta de solidão e tudo mais, a gente trata deste assunto no carro três, que é o carro do cabaré, entretanto obtivemos um pouco de resistência, mas as pessoas foram entendendo melhor a abordagem e acabaram gostando.

Eu não sou sambista de raiz, sou jornalista, porém agora sou sambista, mas eu não nasci em família de samba, porque a escola de samba tem esta tradição de as pessoas nascerem neste meio. Mas eu sempre fui apaixonada por carnaval, além do mais eu trabalhei por muito tempo na TV Globo, que é uma emissora de televisão que realiza uma grande cobertura do carnaval e é detentora do direito de transmissão das imagens. Eu fui indicada pra trabalhar aqui por um colega meu de lá.

Aqui na escola possuímos uma coisa chamada ‘amadurecimento do enredo’, e isso a Angelina me ensinou e ela ensina isso na comunidade dela também, que ela chama de ‘filhos da roseira’. Então você vai vivendo o enredo a cada ponto, cada descrição, cada fase de você compor o carnaval. Você vai vivendo o enredo, e nesse momento a gente vai se apaixonando pelo enredo. Primeiro você define o enredo, como sobre homenagear os caminhoneiros, depois vem o nome e logo em seguida tem várias discussões. São vários brainstorms que a gente faz e eu participo como assessora deste momento de desenvolvimento e composição do carnaval. Então você vai se apaixonando e nisso vamos tendo vários eventos durante o ano para poder passar para a comunidade estas decisões e para a comunidade também ir vivendo e se apaixonando junto a nós.

Um momento que eu acho muito bom e arrisco dizer que seja um dos pontos altos do carnaval são as eliminatórias, que é a escolha do samba, porque o samba traz a parte emocional do carnaval, porque você vê a plástica, que são as fantasias e as alegorias, que são impressionantes. Mas aquilo que vai captar tua atenção vai ser a canção, que é a obra, o samba. Outro momento importante que temos no carnaval é a escolha do samba enredo, e os compositores, neste ano a gente teve uma safra boa de sambas, pois os compositores foram muito felizes, porque eles trouxeram uma carga emocional que você pôde atestar ontem no ensaio técnico. Esta emoção tem que sair da avenida e ganhar a arquibancada, ganhar o mundo, os telespectadores.

Chico da Boleia: Agora olhando pelo lado do setor do transporte, os caminhoneiros, as empresas, os fabricantes, como é que foi este impacto?

Lara Schulze: Foi muito positivo, a gente já tem uma relação com a Mercedes-Benz há sete anos, ela já foi nossa parceira no carnaval de 2013 (“Condutores da alegria”) e esta parceria durou este tempo todo e nunca na história da escola aconteceu de homenagear os caminhoneiros, que é uma parte importante da economia brasileira. Nós da escola de samba “Rosas de Ouro” somos a única escola que leva os caminhões pra avenida por causa dessa parceria com a Mercedes-Benz. Então em vez de levar os carros alegóricos nos ensaios técnicos os caminhões fazem esta vez, que são os caminhões da Mercedes-Benz.

Numa ligação com os sindicatos e seus parceiros, através da Revista Caminhoneiro, que também nos ajudou muito, o pessoal da ATT Editora, que também tem esta conexão com o pessoal da Mercedes-Benz, logo, chegamos até você, Chico da Boleia. E estamos trazendo estas pessoas do setor pra dentro da escola de samba que não é um ambiente comum dos caminhoneiros. Vamos utilizar um aplicativo também que é o da Truckpad, que vai avisar a todos os usuários sobre esta homenagem aos caminhoneiros, contendo informações das escolas de samba, datas dos desfiles, ensaios e tudo mais. Mesmo que estes usuários não consigam vir, eles irão saber de tudo para se sentirem homenageados. Nós queremos chegar naquela pessoa dentro da boleia que está ouvindo nosso samba e pensando “nossa, isso foi feito pra mim”. Nós fomos muito bem recebidos pela classe, e eles estão apaixonados.

Além de atender a imprensa eu faço os convites para as pessoas virem participar, inclusive artistas, porque é muito bom ter o envolvimento dos artistas, muito também por ser um movimento cultural, com apelo popular muito grande. Um momento muito especial pra mim foi quando nós convidamos a dupla Maiara e Maraisa para fazer parte de nosso desfile. As convidamos em razão do sucesso que elas fazem no Brasil todo e iremos tratar da música sertaneja, e como temos uma escola de samba co-irmã que vai tratar do tema caipira, então nós pensamos em convidar duplas femininas porque também a escola é presidida por uma mulher que é muito forte na área de atuação dela. Hoje é um momento muito forte no lado feminino do campo musical, ganhando cada vez mais espaço, então chamamos as Galvão que estão na estrada há setenta anos e que vão comemorar na avenida, no último carro da música sertaneja. Além do mais, elas embalaram muitas viagens dos caminhoneiros por este Brasil.

Fomos gravar o samba e convidamos a dupla Maiara e Maraisa para cantar uma parte do samba alusivo, que é uma parte que vai dar início. Então Maiara entrou para gravar e pegou a letra, leu e começou a cantar, mas num dado momento ela teve que parar porque ela se emocionou e começou a chorar muito e nós todos do estúdio choramos junto, pois ficamos muito emocionados. A Angelina chorou, eu também. Ela leu a letra e disse “nossa vida, é a história da minha vida também!”, porque elas também estão nas estradas há muito tempo. Elas não são caminhoneiros, mas deixaram a casa pra levar a canção e a emoção delas para o Brasil todo. Explicamos o enredo às Galvão e elas disseram que também era a história da vida delas. Estamos muito felizes e para nós o carnaval 2018 vai ser demais!

Redação Chico da Boleia

Samba Enredo 2018

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Ensaio técnico Rosas de Ouro | Pelas estradas da vida

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