Falsa convocatória de paralisação de caminhoneiros causa alarde nas redes sociais

Documento circulou por redes como Facebook e Whatsapp, além de ter sido divulgado pelos principais veículos de comunicação do país.

No último dia 30 de agosto circulou pelos jornais do país inteiro uma convocatória chamando os caminhoneiros para uma nova paralisação, prevista para o próximo dia 08 de setembro. O documento é assinado por uma suposta entidade intitulada “União dos Caminhoneiros do Brasil”.

O texto diz que a mobilização por “tempo indeterminado” tem como objetivo chamar a atenção do Governo Federal para o não cumprimento por parte da ANTT, das determinações da Lei 13.703/2018, que institui a política de pisos mínimos do transporte rodoviário.

Tal lei, é derivada das exigências da última mobilização dos caminhoneiros, que reclamavam sobre o baixo valor pago pelo frete e a necessidade de criação de uma tabela que pudesse regular esses preços nacionalmente.

Tema de controvérsias e discussões, a chamada “tabela do frete mínimo” tem dividido as opiniões do setor. Entre as entidades patronais muitos são contrários, já que defendem o caráter livre do mercado do transporte rodoviário de cargas. Outros afirmam que é necessário estabelecer um piso mínimo para que os caminhoneiros autônomos possam continuar atuando.

A responsabilidade de criação dessa tabela de piso mínimo do frete ficou sob responsabilidade da ANTT. No entanto, alguns líderes de entidades dizem que a Agência não possui subsídios para criar um referencial capaz de contemplar as especificidades dos tipos de carga, rotas e distâncias. Opiniões nesse sentido foram dadas pelos representantes de sindicatos durante o CONET & Intersindical e cujas informações o leitor pode ver na reportagem principal desta edição.

Da parte dos caminhoneiros autônomos, as reclamações que nos chegam são de que a ANTT não tem cumprido com a fiscalização do frete mínimo pago por embarcadores e empresas de transporte. Por isso, esses segmentos não têm praticado o valor mínimo do frete, causando prejuízos aos caminhoneiros.

Além disso, os caminhoneiros também denunciam o aumento do óleo diesel nas bombas dos postos de gasolina. Muitos alegam que o governo havia prometido segurar o aumento do combustível até janeiro de 2019, medida que não cumpriu, visto que o combustível já foi reajustado.

No entanto, mesmo com as atuais reclamações, não é possível afirmar se uma nova paralisação está confirmada para os próximos dias. Na última greve dos caminhoneiros, aprendemos que muitos deles se mobilizaram de maneira espontânea, sem necessariamente terem respondido ao chamado de sindicatos naquela época. Também vale pontuar que a suposta entidade que convocou a paralisação, a União dos Caminhoneiros do Brasil, não existe! Em uma busca rápida na internet não foi possível encontrar nenhuma informação sobre tal organismo, nem quem são as pessoas que compõem sua diretoria ou a classe que representam.

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No documento, o falso grupo diz representar caminhoneiros de todo país. No entanto, numa conversa informal com membros da categoria, eles alegam desconheceram tal entidade. Ainda pontuam que depois da greve de maio deste ano, muitos organismos “fantasmas” apareceram divulgando fake news sobre o setor.

Sendo assim, a convocatória não tem validade. Ou seja, se uma nova paralisação de caminhoneiros realmente acontecer não será porque a falsa entidade os convocou.

A hipótese é de que algum grupo, sabendo das insatisfações dos caminhoneiros com os problemas pontuados acima, tenha se adiantado e formulado o falso documento, fazendo com que circulasse entre os meios de comunicação que, muito irresponsavelmente, divulgaram uma informação que carece de veracidade e que deturpa os interesses da categoria.

Tanto é que no texto divulgado no dia 30, a falsa entidade demanda a “dissolução da diretoria da ANTT” e pede “espaço em cadeira cativa e permanente de um representante da categoria por estado no conselho executivo, operacional e de administração dentro da ANTT no que tange ao transporte rodoviário de cargas”. Até onde sabemos, essas não são exigências dos caminhoneiros.

O documento foi amplamente divulgado por grandes veículos de comunicação e causou alarde entre a população. Nas redes sociais já se fala de uma grande paralisação, o que não tem, de fato, embasamento real.

A suposta convocatória gerou repúdio entre as entidades representativas dos caminhoneiros. A Abcam, Associação Brasileira dos Caminhoneiros, desmentiu o documento e alegou que as imagens e vídeos que circulam atualmente em redes sociais se referem ao contexto da mobilização anterior, não tendo conexão com o presente momento.

A Federação dos Caminhoneiros de São Paulo (Fecam-SP) divulgou nota de repúdio, denunciando a União dos Caminhoneiros do Brasil como uma entidade fictícia. De acordo com a nota, a suposta União não tem registro como entidade de classe e também não é possível localizar informações detalhadas sobre sua sede ou associados.

Outra entidade que condenou a circulação da falsa informação sobre uma possível paralisação de caminhoneiros foi o Sindicam-Amparo, que publicou nota orientando caminhoneiros e veículos de comunicação a atestarem as informações repassadas através das redes sociais. O sindicato ainda salientou que não permitirá que falsas entidades se apropriem dos interesses dos trabalhadores das estradas para se auto promoverem e atenderem a interesses alheios aos da categoria.

Redação Chico da Boleia

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