Conheça a história de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas

Imagem de São Cristóvão, protetor dos (as) motoristas

Por Diego Omar da Silveira

25 de julho é dia de São Cristóvão. Na minha infância, lembro de ter ido algumas vezes, com meus avós e tios, na festa que acontecia na capela dedicada ao santo, na cidade de Extrema, sul de Minas Gerais. E de depois, seguir em carreata para receber a água benta aspergida nos muitos automóveis e caminhões que seguiam em fila, em busca de bênçãos.

Na variante verde do meu tio e no caminhão azul do meu pai, lá estava o santinho, ao lado do Nossa Sra. Aparecida, no painel, em um imã ou em uma estátua em miniatura, para garantir proteção contra os acidentes.

Também me recordo das muitas histórias em torno da firmeza do santo, que nunca abandonava o motorista nos momentos de perigo, mas que em alguns casos havia desaparecido diante de situações de risco iminente.

Histórias do catolicismo popular, que toma os santos como auxiliares, companheiros, às vezes confidentes dos fiéis, de tal modo que as forças e fraquezas de ambos também se fundem. Entre as muitas orações dedicadas ao santo forte, existem até aquelas que rogam para que Cristóvão não deixe o motorista se embriagar.

Mas como um santo, mártir dos primeiros séculos da Igreja, tornou-se o protetor dos motoristas?

Pelos relatos que nos chegam e que estão registrados nas Legenda Áurea (um livro de referência para as devoções católicas redigido no século XV), trata-se de um “cananeu de origem, que foi martirizado por volta do ano 250 d.C.”, durante a perseguição aos cristãos comandada pelo imperador Décio. Seu pai era Ofero, rei de Canaã e o seu nome de origem Réprobo – do latim reprobu, que significa “malvado”.

As narrativas que se perpetuaram por meio da tradição oral cristã dão conta de um homem gigantesco e de força descomunal. Muito orgulhoso e em busca de prestígio, ele teria se disposto a servir o “Senhor mais poderoso do mundo”. Vendo que os humanos temiam Satanás, serviu a ele por algum tempo, até se dar conta de que o próprio diabo também temia a Cruz.

Percebeu então que “Jesus Cristo era quem ele procurava”. Foi então que um eremita – um tipo de padre que vagava pelo mundo em oração e vivendo de esmolas – lhe apresentou a doutrina cristã e lhe ensinou que uma vida simples, de jejum e caridade, era o que mais agradava ao Crucificado.

Como vivia em um local em cujos arredores havia um rio caudaloso, que sempre inundava destruindo as pontes, resolveu servir ao próximo oferecendo seus ombros para fazer a travessia dos pobres, crianças e velhos pelas águas, de tal modo que sua tarefa cotidiana era de muito trabalho.

Nesse ponto, como em outros, há interessantes semelhanças entre a sina de Cristóvão de Atlas, um personagem da mitologia grega, condenado por Zeus a “carregar o firmamento sobre os ombros”.

Certa noite, durante uma tempestade, ao carregar um menino quase não conseguiu completar o trajeto, pois a criança tornava-se cada vez mais pesada. Ao chegar a outra margem, já exaustou, ouviu do pequeno: “Eu sou Jesus e estais carregando nas costas o Redentor e os pecados do mundo”.

Tanto o nome cristão quanto a iconografia (imagem) do santo remetem a esse episódio.

Cristóvão é derivado do grego christophoros, que quer dizer “o portador de Cristo” e a sua representação mais conhecida é a de um gigante, de vestes leves, até os joelhos, carregando uma criança e apoiando-se em um cajado. Em alguns casos, a menino-Deus traz na mão um globo terrestre.

Desde então, Cristóvão teria se dedicado a pregar a doutrina cristã aos gentios, na Ásia Menor, sul atual Turquia. Lá foi preso, torturado de diversas formas e degolado no dia 25 de julho.

Segundo Nilza Botelho Megale, sua devoção é bastante antiga. Acredita-se que a primeira capela lhe foi dedicada na Calcedônia, ainda no século V; em seguida vieram os conventos a ele consagrados.

A fé nesse santo também se difundiu em Veneza “e nas proximidades dos rios Reno e Danúbio, sujeitos a enchentes” mais ou menos constantes. A partir do século IX ele se tornou objeto de culto na França e um pouco mais tarde na Inglaterra. Por conta das pestes, foi invocado como um dos 14 santos auxiliares da Igreja, para proteger das epidemias.

É provável que a devoção tenha desembarcado no Brasil durante o primeiro século de colonização, com os portugueses, já que o município de São Cristóvão, em Sergipe, está entre os mais antigos e que a capela que deu nome ao bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, data das primeiras décadas do século XVII.

Mas foi no início do século XX, com a crescente utilização de transportes automotivos que o apelo a São Cristóvão se difundiu. Conta-se que, “em 1905, a rainha italiana Margarida de Sabóia viajava pelo Valle D’Aosta quando pastores atiraram pedras contra seu veículo e quebraram os faróis. Sem conseguir enxergar, seu motorista se agarrou à medalha de São Cristóvão e evitou um acidente”.

O santo, que já era protetor dos turistas e viajantes, passou a ser invocado também para proteger os motoristas e transportadores. Em Paris, uma igreja consagrada ao santo está localizada perto da fábrica da Citroen.

Imagens, medalhas e santinhos de São Cristóvão são encontrados com frequência em carros, táxis e caminhões, de tal modo que a devoção acompanha os motoristas.

As várias orações ao santo sempre pedem “firmeza e vigilância no volante”, “proteção para os que viajam” e “que todos cheguem bem ao seu destino”. Em uma delas, há uma passagem especialmente bonita: “Que eu descubra Vossa presença na natureza, nas rodovias, nas ruas, nas criaturas, e em tudo aquilo que me rodeia. São Cristóvão, protegei-me e ajudai-me nas minhas idas e vindas a saber viver com alegria, agora e sempre. Amém!”

Ao invés das procissões, é comum que no dia da festa os condutores organizem cortejos para saudar, pedir e agradecer a proteção de São Cristóvão, homem forte e empenhado em ajudar a todos os que dele precisavam para fazer uma travessia. Símbolo que até hoje representa muitos dos que cortam as estradas brasileiras de sol a sol.

 

Para saber mais:

Nilza Botelho Megale. O Livro de Ouro dos Santos. Vidas e milagres dos santos mais venerados no Brasil. 2º ed. São Paulo: Ediouro, 2004.

Silvana Cobucci Leite. São Cristóvão. São Paulo: Loyola, 1999.

 

Diego Omar da Silveira é professor do Curso de História da Universidade do Estado do Amazonas.

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