Intervenção só se for educacional, diz caminhoneiro grevista de São Paulo.

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Moisés Oliveira, um dos líderes do grupo de caminhoneiros que está paralisado na rodovia Régis Bittencourt, diz não concordar com a intervenção militar.

O movimento grevista mantido pelos caminhoneiros está longe de ser homogêneo e reivindicar uma pauta única. Dentre as principais bandeiras levantadas por esses trabalhadores está a redução do preço dos combustíveis, o fim do pedágio sobre o eixo suspenso e uma tabela de frete mínimo atualizada.

As últimas notícias que nos chegaram sobre o movimento grevista revelam que, mesmo após acordo entre entidades sindicais e governo federal, os caminhoneiros autônomos continuam mobilizados. Muitos desses trabalhadores, reclamam do caráter provisório das medidas concedidas pelo Michel Temer e acreditam que, mais cedo ou mais, o governo vai voltar a subir o preço dos combustíveis.

As demandas dos caminhoneiros, porém, se confundem. Existe uma boa parcela que tem feito pedidos de intervenção militar. A percepção do que seria uma eventual “intervenção” nesse momento tampouco revela-se muito clara. Através dos vídeos que tivemos acesso, os manifestantes pedem a restauração da ordem e da moral no país a partir de uma intervenção do exército. Nesse sentido, muitos desses caminhoneiros acreditam que as forças armadas os isentariam de qualquer tentativa de desmobilização do movimento ou violência repressiva.

Não está claro também se esses caminhoneiros querem uma intervenção militar temporária ou se acreditam que o que pode resolver seus problemas é o controle político por parte das forças armadas. Esse tipo de reivindicação, portanto, não esclarece qual tipo de intervenção a ser realizada, nem quais seus limites ou alcances.

Em linhas gerais, os pedidos de intervenção militar parecem ser mais fruto de uma confusão de reivindicações do que propriamente a expressão de uma consciência da classe sobre o que seria essa nova política, ou sobre o tipo de nova sociedade que se quer construir com ela. Afinal de contas, sabemos que uma intervenção militar seria realizada justamente com o objetivo de desarticular o movimento e desmobilizar os caminhoneiros.

Se fosse utilizado, o exército seria acionado pelo governo Michel Temer para o cumprimento das determinações em nome da “garantia da lei e da ordem”. As devidas providências sobre a utilização das forças armadas já foram, inclusive, tomadas pelo presidente desde a sexta-feira, dia 25 de maio. Na ocasião ele assinou decreto que permite a utilização dessas forças para auxiliar a Polícia Rodoviária Federal e as Policias Militares a liberarem as rodovias que ainda contassem com a resistência dos caminhoneiros.

A decisão também prevê o emprego de militares até o dia 4 de junho em situações de perturbação da ordem pública e também ações de desobstrução de vias. Dentre outras medidas, a determinação também autoriza a remoção ou condução de veículos que estiverem obstruindo a via pública; escolta de veículos que prestem serviços essenciais ou transportem produtos considerados essenciais; garantia de acesso a locais de produção ou distribuição desses produtos; medidas de proteção para infraestruturas consideradas críticas.

No sábado, dia 26, o presidente também assinou um decreto que autorizou a “requisição de bens”. O texto publicado determina que “fica autorizada a requisição, pelas autoridades envolvidas nas ações de desobstrução de vias públicas determinadas pelo Decreto nº 9.382, de 25 de maio de 2018, dos veículos particulares necessários ao transporte rodoviário de cargas consideradas essenciais.”

Assim, os grupos que levantam a bandeira da intervenção militar sequer têm feito a reflexão de que essa medida pode desarticular o próprio movimento grevista. Repetem um discurso muitas vezes esvaziado de sentido e vulgarizado pela grande mídia e por “personalidades” que ganharam as redes sociais nos últimos tempos, como membros parlamentares da chamada “bancada da bala”.

Seja como for, também não é correto taxar todos os caminhoneiros de intervencionistas, nem generalizar seus posicionamentos político-ideológicos. Em São Paulo, mais precisamente na rodoviária Regis Bittencourt, há um grupo que rechaça integralmente qualquer tentativa de intervenção militar.

Moisés Oliveira é uma das lideranças desses caminhoneiros autônomos que estão paralisados na rodovia desde o dia 21. No setor há mais 20 anos, Oliveira destacou em entrevista ao jornal Chico da Boleia que a demanda dos caminhoneiros é por melhores condições de trabalho. “Na verdade a gente está buscando melhorias para a nossa classe. Esse foi o principal fator da nossa mobilização e por isso não aceitamos o acordo do Michel Temer”, destacou.

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Quando questionado sobre o pedido de intervenção militar feito por alguns membros da categoria, Moisés foi enfático: “Se for pra ter uma intervenção, tem que ser uma intervenção educacional. Encher as escolas de professores. Intervenção militar, não!”.

Para o caminhoneiro, há uma percepção equivocada dos companheiros de greve com relação ao que é, de fato, uma intervenção militar. “Infelizmente, alguns da classe aqui ainda estão perdidos na informação. Eles estão achando que a intervenção militar vai dar a mão aqui pra gente e que vamos prender o Temer. Ontem eu estava escutando um comentário de um dos caminhoneiros aqui dizendo que se houver intervenção militar, vão tirar o Temer de lá e o único capitão que poderá ocupar o lugar é o Bolsonaro. Então, está havendo uma informação errada aqui. O pessoal não está sabendo exatamente o que é uma intervenção militar.”, expressou.

Oliveira também revelou o temor de uma possível desmobilização violenta do movimento. “Se houver uma intervenção militar, quem vai cair somos nós! A polícia vai vir metendo a borracha na gente e não é isso que queremos.”, afirmou.

De acordo com o caminhoneiro, o movimento segue com a convicção de que não é possível aceitar uma medida que abaixe apenas o preço do óleo diesel. Para ele, é necessário um compromisso do governo que reduza também o valor do gás de cozinha, do álcool e da gasolina; que, ultimamente, vem impactando fortemente o orçamento das famílias brasileiras.

Quando perguntei se havia um diálogo entre os caminhoneiros sobre essas questões mais profundas que tocavam o movimento, Moisés respondeu que todos os dias os caminhoneiros se reúnem para trocar algumas ideias. “A gente chama os caminhoneiros e pede para eles terem cuidado com as informações. Aqui, por exemplo, alguns caminhoneiros já tiraram placas e faixas que pediam por intervenção militar. A gente chegou na “manha”, conversou, e isso deu resultado.”, explicou.

Moisés também reclamou que a classe dos caminhoneiros autônomos não tem uma representação com “voz ativa” que possa estabelecer um diálogo uniformizado. Além disso, Oliveira lamentou que muitos setores da política brasileira simplesmente abandonam a categoria e só se preocupam com ela quando há alguma mobilização.

Nas últimas horas da segunda-feira, 28 de maio, recebemos um vídeo que circulou por whatsapp e que mostrava a ida de Alexandre Frota até as mediações da Regis Bittencourt. Sobre o caso, Moisés comentou que algumas pessoas estão indo até a mobilização para fazer política.

“Eu não consegui encontrar com ele, mas sei que ele é um aproveitador. A gente foi atrás dele porque o pessoal nos falou que ele estava aqui. Ele não representa caminhoneiro nenhum, não representa nada aqui. Soubemos que ele apareceu com um pessoal do MBL (Movimento Brasil Livre)”, afirmou Oliveira.

Sobre o problema da alta dos preços de combustível, Moisés também explicou que os caminhoneiros com os quais tem contato tem discutido e se posicionado contra a atual política de preços da Petrobras. O caminhoneiro afirmou que é inaceitável que o governo brasileiro esteja “dolarizando” os preços derivados do petróleo no Brasil.

“Eles querem dar quarenta e seis centavos pra gente agora e daqui a pouco aumentar de novo. A gente sabe que a política de preços da Petrobras tem vendido nossas refinarias, tem dolarizado o nosso petróleo e isso tem encarecido o diesel, a gasolina. E a gente precisa também que pessoas com mais informações sobre isso venham falar aqui para o pessoal da greve”, expressou.

Em vídeo que circulou na segunda-feira, Moisés aparece ao lado de outros caminhoneiros grevistas rechaçando os termos do acordo feito por Michel Temer e afirmando que o que a categoria busca é a demissão de Pedro Parente, atual presidente da Petrobras, e o fim da política que tem sido praticada pela empresa. “A gente quer o nosso petróleo sendo refinado aqui dentro do país para que os combustíveis tenham preços acessíveis”, afirma no vídeo.

O caminhoneiro autônomo também agradeceu a população da região que, segundo ele, tem apoiado e ajudado os grevistas com alimentos e outros itens que forem necessários. “Aqui temos outras lideranças, e nos dividimos em turnos para ficar de vigília e para ter conversas com os caminhoneiros. Queremos melhores condições de trabalho”, concluiu.

Larissa Jacheta Riberti para jornal Chico da Boleia

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