Dependência de importações preocupa

Nos últimos três anos, o Brasil elevou sua dependência de importação de combustíveis e bens petroquímicos, um quadro que poderá se consolidar ao longo das próximas décadas, mesmo com o anúncio pelo governo de investimentos para a ampliação do parque de refino. Em paralelo, a defasagem do etanol em relação à gasolina, que no momento está em 26%, tem reduzido a competitividade do biocombustível, que, para atender à demanda futura, precisará dar um salto. “O governo confunde planejamento com intervenção. De 2009 para cá, nos tornamos importadores de todos os derivados, sendo que até 2009 éramos autossuficientes em gasolina”, afirmou o presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), Adriano Pires.

O controle sobre os preços dos combustíveis, em especial gasolina e diesel, desde 2008, se somou à política de incentivo à aquisição de veículos, com redução do Imposto de Produtos Industrializados (IPI). De um lado, isso resultou no aumento da frota. De outro, a gasolina teve seu preço subsidiado, o que reduziu a competitividade do setorsucroalcooleiro, que teve de pisar no freio, analisou Pires.

“Entre 2010 e 2011, a produção nacional de gasolina deixou de atender à demanda doméstica, sendo que a importação dela cresceu 333%”, destacou. O resultado tingiu de vermelho a balança comercial setorial: no primeiro semestre, o déficit superou US$ 6 bilhões, sendo que a importação de gasolina aumentou 11%, para US$ 1,7 bilhão.

O congelamento de preços teve impacto sobre a Petrobras, que acumula saldo líquido negativo de R$ 40,6 bilhões desde 2003 por conta dessa defasagem dos preços do diesel e da gasolina, que respondem por cerca de 60% da receita da estatal. Depois de três décadas sem novas refinarias, o país assiste à construção de duas, uma no Nordeste, e outra no Sudeste, além de dois outros novos projetos, que poderão acrescentar 1,6 milhão de barris por dia de capacidade de refino em dez anos. Hoje a capacidade atual do parque de refino está em 2,1 milhões de barris por dia.

“Apesar do anúncio desses investimentos, as margens de operação de refinaria são baixas e, com controle de preço sobre os derivados, elas poderão se tornar negativas, ou seja, esses investimentos serão mesmo levados adiante?”

A Petrobras enfrentaria dificuldades para financiar todos os seus projetos. As refinarias Premium 1 e Premium 2 ficaram fora da lista de 770 projetos da estatal para implantação e, por sua vez, incluídas na carteira dos 177 projetos cuja viabilidade está sendo avaliada.

“Temos que saber quem vai construir essas refinarias. Alguém tem de construir essas refinarias ou então vamos ser um país importador ao longo das próximas décadas”, disse o diretor da Gas Energy, Carlos Alberto Lopes, ressaltando que o país pode se tornar um importador crônico de derivados e bens petroquímicos.

Mesmo com a concretização de projetos como o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e a construção das refinarias Premium 1 e Premium 2 da Petrobras, o Brasil pode enfrentar um déficit de 400 mil barris por dia em petróleo e derivados em 2025.

O quadro é ainda mais complexo. Com a revolução do preço do gás de xisto nos Estados Unidos, onde o insumo chega a custar um quinto do preço praticado no Brasil, muitas empresas na cadeia química podem migrar investimentos para o exterior.

O déficit acumulado da balança comercial de produtos químicos nos últimos 12 meses encerrados em junho é superior a US$ 31,1 bilhões, um recorde negativo. “A petroquímica está em uma encruzilhada”, ressaltou Pires.

Já a defasagem de 26% do preço da gasolina nacional em relação aos preços internacionais tem efeito sobre outro setor: o sucroalcooleiro, responsável pela produção de etanol, segundo principal energético da matriz nacional, com 16% de participação na matriz do país, perdendo apenas para os derivados de petróleo. Hoje 57% do total de veículos que rodam nas ruas do país são flex, sendo que o Brasil detém dois terços dessa frota que roda com dois combustíveis no mundo. Em 2021, estima-se que 80% dos veículos produzidos aqui sejam flex.

O consumo de combustíveis poderá pular dos atuais 50 bilhões de litros para 75 bilhões de litros. Ano passado, o consumo de etanol chegou a 22 bilhões de litros. Em 2012, o país registrou um déficit de 4,6 bilhões de litros no etanol hidratado. Foi necessária a importação de uma quantidade de biocombustível produzido de milho dos Estados Unidos. “Como será suprida essa lacuna até 2021? Importação de gasolina? Etanol? Derivados fabricados aqui no Brasil?”, ponderou Alfred Schwarcz, consultor sênior da Única (União da Indústria de Cana-de-açúcar).

Para que o setor possa atender à demanda, seria preciso dobrar a oferta de cana-de-açúcar, para 1,2 bilhão de toneladas, com a construção de 100 usinas, um crescimento de 8% ao ano do insumo. “É essencial a existência de regra clara de formação de preços no setor de combustíveis”, afirmou o professor Luiz Augusto Horta, da Universidade Federal de Itajubá.

Horta ressaltou que os sinais contraditórios dados à produção de biocombustíveis vão contra a própria Política Nacional de Mudanças Climáticas, assinada pelo governo, em que se prevê um aumento de 11% da participação do etanol até 2020 na matriz.

Roberto Rockmann
Fonte: Valor Econômico

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