Caminhão da saudade: a rotina dos pais caminhoneiros.

Há anos nós aqui do Chico da Boleia escrevemos sobre o dia a dia dos caminhoneiros e caminhoneiras pelo país. Ao longo desse tempo, percebemos que a chegada do Dia dos Pais sempre vem acompanhada de muita saudade. Isso porque a profissão de caminhoneiro é uma rotina que implica “sentir falta”. E quando se é pai, além da saudade, o que acompanha o caminhoneiro é também a responsabilidade com a família que ficou em casa.

O Dia dos Pais é uma data importante para a categoria porque durante muito tempo, a profissão de caminhoneiro foi passada de geração para geração. Não é incomum encontrar os homens comentando no trecho que seus pais eram caminhoneiros. Ou que a profissão foi herdada de outra pessoa da família, como o avô ou o tio.

Antônio Carlos Fernandes tem 58 anos e desde muito pequeno vive dentro da boleia de um caminhão. Dono de um Scania e provindo da cidade de Sorocaba, o profissional autônomo comenta que na sua família o que não falta é caminhoneiro.

“Meu pai era caminhoneiro, se aposentou tem pouco tempo porque teve um problema de saúde. Se não fosse a gente fazer com que ele fique em casa, provavelmente ele tava na estrada até hoje”, comentou.

Fernandes tem três filhos e é casado há mais de 30 anos. Seu filho mais velho, Renato Fernandes, também era caminhoneiro, mas decidiu trocar de profissão recentemente. “Eu casei e minha esposa reclamava muito da distância, eu nunca estava em casa. Daí eu comecei a trabalhar no almoxarifado de uma empresa da cidade”.

Renato, no entanto, sente falta da vida na estrada. “Não era fácil não. Às vezes eu ficava muito tempo esperando a carga para trazer de volta. Tem muita estrada ruim e muito assalto também. Mas eu sinto falta de pegar o caminhão e sair pela estrada”, comentou.

Antônio e Renato, quando este ainda estava na profissão de caminhoneiro, costumavam fazer algumas viagens juntos. De acordo com o filho, era uma oportunidade para passar mais tempo do lado do pai.

“Eu cresci vendo meu pai sair para trabalhar sem dia para voltar. Como ele sempre foi autônomo dependia de arrumar a carga de volta. Às vezes eu via minha mãe chorando no quarto, acho que era de saudade ou de medo que ele não voltasse”, contou Renato.

Para o jovem, viajar ao lado do pai era uma forma de combater a saudade, que tanto fez parte da vida da família. Para o pai Antônio, que passava os dias na boleia, a vontade de voltar para casa também sempre se fez presente.

“As pessoas têm a impressão de que quando você está na estrada ou esperando uma carga para voltar você está aproveitando uma espécie de férias. Não é bem assim! A gente fica agoniado, com vontade de voltar pra casa. Quer ver a família, a turma da rua, passar um domingo sossegado com os filhos.”, explicou Odair.

Quanto ao Dia dos Pais, perguntamos ao caminhoneiro quantas vezes ele passou a data longe dos filhos. “Nem sei contar”, respondeu ele. Renato, no entanto, disse que a família costuma comemorar as datas importantes como Dia dos Pais, das Mães e aniversários em dias diferentes, quando o pai já voltou pra casa.

“Minha mãe sempre teve esse costume. Ela nunca gostou de comemorar nada quando meu pai não estava. Acho que ela pensava que ele ficaria triste se a gente celebrasse alguma coisa sem ele. Então ela mudava as datas, esperava ele chegar para fazer um almoço ou cantar um parabéns. Acho que isso fez a diferença na nossa família, porque a gente sempre foi muito unido”, disse Renato.

Ser pai e caminhoneiro é uma combinação difícil porque o tempo pode ser um inimigo. Quando Rafael, o filho caçula de Odair nasceu, o caminhoneiro não estava presente. Demorou mais ou menos um mês para que os dois se conhecessem.

“O Rafael nasceu em 95 e eu tava na Bahia. Meu caminhão quebrou e eu não tinha como vir embora. Não era uma época muito fácil, a gente não tinha dinheiro para comprar uma passagem de avião ou de ônibus. E eu também não queria deixar o caminhão lá.”, contou Odair.

O caminhoneiro havia feito uma viagem para Lauro de Freitas e pretendia voltar carregado de fruta até a metade do caminho, e depois encontrar um outro frete. Mas a quebra do caminhão fez com que ele atrasasse os planos e não conseguisse chegar a tempo para ver o filho nascer.

“Eu fiquei muito chateado porque a Sônia (esposa) tinha ficado sozinha com mais dois filhos pequenos. Eu fiquei preso lá em Lauro de Freitas umas duas semanas, esperando meu caminhão arrumar. Tive que emprestar dinheiro pra pagar a conta, mas eu queria vir embora o mais rápido possível.”, relembra Antônio.

O infortúnio fez com que o caminhoneiro chegasse em casa quase um mês depois do previsto. Mas por sorte, ele conseguiu uma boa carga e conheceu Rafael, levando um presente para o recém-nascido.

“Meu pai me deu um caminhão de brinquedo, eu tenho até hoje. Foi meu primeiro brinquedo.”, relembra Rafael. “Na época ele teve um problema lá na Bahia e não conseguiu chegar a tempo de me ver nascer. Mas eu nunca fiquei chateado com isso, acho que deve ter sido pior pra ele”, conta.

Apesar dos infortúnios, Antônio não lamenta o tempo que passou longe de casa. Para o caminhoneiro isso faz parte da profissão, por mais difícil que seja. “Faz parte. Quando a gente se torna caminhoneiro já sabe que vai ter que ficar longe de casa, dos filhos”, comentou.

Antônio diz que gosta da vida na estrada, mas que os tempos estão muito mudados. A segurança é cada vez menor e para quem está começando o salário não cobre todas as despesas. Para ele, a vida oferecia menos oportunidade antigamente e os jovens não tinham tanta opção de estudar como atualmente. “Quando eu era pequeno acompanhava meu pai e nunca fui pra escola direito. Ia uns dias, depois faltava, por isso para mim ser caminhoneiro foi a melhor opção”, contou Antônio.

Para o pai dos três filhos, no entanto, educação é fundamental. Renato, Cristina e Rafael foram matriculados desde muito cedo na escola e o mais novo cursa universidade. À diferença do pai, que fez até a quarta série do Ensino Fundamental, os três filhos concluíram o ensino básico e médio e sempre tiveram muita cobrança da família quando o assunto era escola.

“Quando eu tava fora às vezes a Sônia me ligava falando de algum problema dos meninos na escola. Teve uma vez que eu liguei na escola deles porque o Renato tinha matado aula. Eu disse pra secretária que se ele fugisse da aula de novo era pra ela dar um castigo firme nele”, riu Antônio. Renato confirmou a história e disse: “Meu pai ficava muito bravo quando a gente fazia alguma coisa errada na escola. Às vezes ele voltava muito tempo depois do que tinha acontecido mas ele castigava a gente mesmo assim, deixava sem televisão, sem brincar na rua.”.

Profissão

Sobre as atuais condições da profissão, Antônio revelou que a infraestrutura de algumas estradas melhorou, mas em compensação os pedágios aumentaram muito. Além disso, ele acha a fiscalização insuficiente. “Se você dirige pelo Sul ou pelo Sudeste as condições são melhores, mas tem lugar que não tem sinalização nenhuma.”, contou.

Sobre a Lei do Motorista e a que exige a realização do exame toxicológico no ato da renovação ou mudança de categoria na CNH, Antônio Carlos disse concordar com ambas as leias, mas que ainda falta melhorar. “Tem muito colega que dirige bêbado ou que se droga, além de que também existe muito motorista comum que faz isso sem ser punido. Eu acho que a polícia tinha que fazer um controle rígido nas estradas todos os dias para evitar os acidentes e os prejuízos também pra nós caminhoneiros. Porque se um acidente acontece, mesmo que a culpa não seja nossa, a gente vai levar a fama”, reclamou.

Antônio Carlos também não concorda que os caminhoneiros tenham que arcar com o custo do exame toxicológico. “Se é uma exigência do governo, que paguem por ela, não a gente”, expressou. Para o motorista, um dos grandes problemas da profissão é que ela é muito desvalorizada pela sociedade e que os próprios caminhoneiros não se organizam. “Sem a gente nada funciona, mas tem muito colega aí da estrada que quer prejudicar o outro”.

Apesar da distância constante do “caminhão de saudade” que a vida nas estradas traz, neste ano, Antônio Carlos e sua família puderam comemorar o Dia dos Pais juntos.

Desenlace

A história de Antônio Carlos é fictícia. Sua esposa Sônia e seus filhos Renato, Cristina e Rafael também são fictícios. Mas a história contada acima é verossimilhante, ou seja, ela poderia ser real e ela contém elementos que fazem com que ela se aproxime muito da realidade.

Em outras palavras, a história de Antônio Carlos poderia ser a sua, leitor caminhoneiro, que tantas vezes pegou a estrada e deixou a família com dor no peito. Que sentiu saudade e que estava longe no Dia dos Pais, num aniversário ou no nascimento de um filho. Que teve um caminhão quebrado muito longe e atrasou o retorno e que espera por melhores condições de vida e por mais valorização da profissão.

Ao Antônio Carlos, que poderia ser qualquer dos nossos leitores ou caminhoneiros desse país, desejamos um Feliz Dia dos Pais e que seu retorno para a casa seja sempre em segurança e com muita alegria.

Redação Chico da Boleia,

                Redes sociais facilitam a comunicação quando se está longe, mas nada disso substitui encontrar a família aos sábados e domingos

O que é ser pai? Como ser um bom pai? A resposta é complexa e rende assunto para livro. Há quem diga que o verdadeiro pai é aquele que está presente na vida do filho. Mas há uma grande diferença entre estar presente e ser presente. Vida de caminhoneiro é assim. A rotina de trabalho o separa da família.

Em tempos de transformações de relacionamentos sociais, as possibilidades de comunicação a distância são grandes e facilitam matar a saudade por meio de redes sociais como WhatsApp, Facebook. Isso tem ajudado caminhoneiros a entrar em contato com a família, mas nada disso substitui a oportunidade de estar na presença, já que é possível ser presente da família mesmo a distância.

A reportagem foi atrás de caminhoneiros no Posto da Base, em Dourados, ponto de encontro de profissionais da categoria que passam pelo município. Paulo Cesar Sare, 47 anos, mora em Abadiânia (GO) e tem três filhos com 27, 24 e 19 anos. Na profissão há duas décadas, ele diz que não foi fácil, no início, viver ausente da família, principalmente em período de longas viagens de quase dois meses.

“Hoje é mais fácil, pois temos redes sociais e até porque meus filhos já estão grandes. Mas deixei de estar presente ao lado deles durante eventos importantes como Natal, aniversário e me lembro muito bem de um caso ocorrido quando um dos meus filhos, ainda criança, pediu para participar de uma festa do Dia dos Pais, na escola. Ele cobrou minha participação e isso me marcou muito, pois foi aí que percebi o quanto a minha presença era importante, nem que fosse apenas para aquele dia”, recorda Paulo Cesar. Ele é formado em Matemática e lecionou por nove anos, mas descobriu nas estradas do Brasil a sua verdadeira vocação de trabalho.

Os finais de semana são sempre os dias para os caminhoneiros matarem a saudade da família e aproveitar para se dedicar aos filhos. Aquela máxima que são preferíveis 30 minutos de exclusividade ao lado deles do que mais tempo junto, porém, sem ser presente ou dividindo a família com outras tarefas, é válida e verdadeira para os caminhoneiros.

Ricardo Viana, 31 anos, é de Xambrê (PR) e tem um filho de 4 anos. Quando está em casa diz que aproveita o máximo para se dedicar à família. “Vida de caminhoneiro é na estrada e estou há oito anos nessa luta, mas quando estou ao lado deles [família] eu esqueço o trabalho”, disse ao falar da importância de se dedicar principalmente ao único filho. “Embora ele seja pequeno, já entende a minha profissão, mas todos os dias a gente se fala por telefone e a saudade da distância se encurta aos sábados e domingos, quando estou em casa”, explica Ricardo. As viagens dele duram de uma a duas semanas.

O douradense Joel Lopes, 54 anos, está há 15 na profissão de caminhoneiro. Ele confessa que ainda não acostumou ficar longe da família e chegou a pensar em abandonar a profissão. Os principais motivos são os riscos de acidente, aumento no número de assaltos e o baixo preço do frete pago aos profissionais. Pai de dois filhos – 17 e 22 anos – também conviveu com a realidade de vê-los aos finais de semana, mas nunca se sentiu um pai ausente.

FONTE: O PROGRESSO

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