Oriente próximo e trágico*

Há 32 anos desembarquei numa Beirute destruída como a Damasco de hoje

por Albino Castro-Rabay  ( para Carta do Líbano)

As montanhas do Líbano que inspiraram o poeta Charles Corm, autor dos versos mais sublimes da querida pátria dos milenares cedros e deslumbraram orientalistas franceses dos séculos XVIII e XIX, como Volney e Lamartine, naquela manhã de uma terça-feira, dez de agosto, verão de 1982, encheram os meus olhos de lágrimas. O Monte Líbano, presente no imaginário de minha infância, filho de mãe libanesa, estava finalmente diante de mim – depois de vinte e seis horas de uma sobressaltada viagem num pequeno pesqueiro italiano, que partira na manhã de segunda-feira do porto cipriota de Larnaca com destino à cristã Jounieh. O trajeto deveria ser percorrido, lentamente e com segurança, em oito horas, porém, ficamos parados por dezoito horas no Mediterrâneo Oriental por causa dos bombardeios entre israelenses e palestinos. Estava, enfim, preparando-me para desembarcar no Líbano. Exausto e quase sem bagagem. Uma pequena mala de mão de nylon e uma máquina de escrever portátil eram suficientes, naqueles dias, para uma viagem de risco como jornalista enviado especial da revista barsileira Istoé. Beirute vivia há sete anos uma guerra cruel e trágica, que envolvia todo o Líbano. Como acontece nos dias de hoje na vizinha Síria, onde o país está mergulhado numa guerra civil e a mais antiga das cidades do planeta, a minha também querida Damasco, cinco vezes milenar, localidade da conversão de São Paulo, está sendo impiedosamente destruída, a exemplo do que aconteceu em Bagdá e na líbia Trípoli, e poderia ter sucedido no Cairo.

Iela, iela, vamos, vamos, temos que descer logo – gritavam e gesticulavam os alvoroçados tripulantes e passageiros do pesqueiro. Foi tudo muito rápido. Havia uma grande algazarra e nenhum clima para contemplação. Uma escadinha do barco nos despejava em pequenos botes negros de borracha, que eram conduzidos por milicianos cristãos das Forces Libanaises, facilmente reconhecíveis pelas cruzes tatuadas nos braços. Eles nos levavam até um improvisado cais, protegido com sacos de areia, na baía de Jounieh. Tínhamos que saltar correndo dos botes e continuar em velocidade até outra área defendida pela artilharia cristã do jovem comandante Bachir Gemayel – que, no mês seguinte, seria eleito Presidente da República. Era preciso aproveitar os últimos instantes do ‘cessar fogo’ de uma hora estabelecido naquela manhã entre as tropas israelenses, lideradas pelo próprio Ariel Sharon, e os palestinos de Yasser Arafat, e deixar rapidamente uma área atingida, dia e noite, pelos mísseis disparados de qualquer ponto de Beirute Oeste, setor da cidade controlado pela OLP (Organização para a Libertação da Palestina). Sharon e Arafat haviam transformado o Líbano em cenário de seus acertos de contas. Era esse o altíssimo preço que os libaneses, principalmente os cristãos, porém, também muçulmanos, pagavam há sete anos, por terem acolhido em seu território, a partir de 1969, todo o contingente da resistência armada palestina. Era uma guerra na qual estava em jogo a própria nação, que até hoje é a única democracia de todo o bloco da Liga Árabe. Também era um confronto decisivo para a sobrevivência da histórica comunidade cristã do país.

O cessar-fogo de uma hora não foi suficiente para que eu chegasse a um lugar minimamente seguro. Os bombardeios recomeçaram antes que conseguisse um velho taxi, uma Mercedes-Benz, cansada de guerra, com alguns furos de bala, que fazia, a cem dólares por corrida, qualquer trajeto dentro dos setores controlados pelos cristãos na Grande Beirute. Já passava das duas da tarde e eu deveria chegar o quanto antes ao Hotel Alexandre, no bairro de Achrafieh, um dos últimos redutos cristãos próximo à Linha Verde, que dividia a capital libanesa, naqueles anos, em duas cidades antagonistas. O motorista dirigia em ziguezague para não ser alvo fácil de franco atiradores e, por isso, deixou a auto-estrada Jounieh-Beirute e seguiu por trajetos alternativos, verdadeiros atalhos. Fazia muito calor. A Mercedes-Benz, em disparada, subia ladeiras e entrava em becos. Não havia àquela hora quase ninguém nas ruas. Nem carros. Cheguei são e salvo ao Hotel Alexandre, onde, no hall, a beber vinho branco, estava um dos mitos do jornalismo mundial da época, a italiana Oriana Falacci, com impecável tailleur de linho branco, gesticulando muito, fazendo caras e bocas para o seu colega Sandro Viola, ambos enviados especiais do diário romano La Reppublica. Eu era correspondente em Roma e os lia diariamente – aliás, havia partido justamente da capital italiana, de avião, com destino a Atenas e, de lá, a bordo da Chrypus Airways, fui a Nicósia, capital de Chipre, rumando, depois, para Larnaka. Nicósia havia sido dividida em 1974, um ano antes do início do conflito libanês, após a invasão turca, e, infelizmente, ainda hoje se encontra separada, como a Beirute dos anos 1970 e 1980, entre setores cristão e muçulmano.

Fui rapidamente para o quarto. Queria tomar um banho. Minha missão estava incompleta. Deveria nas próximas horas tentar atravessar a Linha Verde e alcançar as regiões controladas pelos palestinos. A ordem que havia recebida da minha redação em São Paulo era ficar próximo a Arafat e testemunhar, no reduto dele, a luta contra os israelenses. Arafat controlava os bairros e subúrbios de Beirute Oeste desde o começo da guerra no Líbano e, naquele momento, comandava todas as forças que se batiam para impedir que os homens de Sharon chegassem ao seu esconderijo. O quartel-general do chefe da OLP era na Rue Fakhani, mas era lá, como pude comprovar muitas vezes, que quase nunca estava. Arafat vivia protegido, provavelmente, nos abrigos antiaéreos improvisados nas garagens dos prédios da outrora sofisticada região da Rue de Hamra. Toda a Rue Fakhani e mais as ruas vizinhas tinham sido transformadas num monte de escombros devido aos bombardeios das forças de Israel. Tenho até hoje, a propósito, na biblioteca de meu apartamento paulistano, como souvenir, um porta-retrato marchetado libanês com uma foto na qual apareço em meio aos escombros da Rue Fakhani. Aquele dez de agosto tinha sido até então o mais longo de meus dias. Havia durado vinte e seis horas. A passagem no pesqueiro italiano Aliazul Branco havia custado, em dinheiro vivo, cento e cinqüenta dólares. Existiam duas outras formas de se chegar a Beirute naquele momento – e nenhuma delas era pelo aeroporto da capital libanesa, que continuava fechado. Muitos jornalistas vinham através de Damasco. Mas não consegui visto de jornalista na embaixada síria em Roma. Outro caminho seria via Israel, mas ficava-se quase sempre retido em Tel Aviv ou Jerusalém, pois Sharon, claro, não queria jornalistas estrangeiros no encalço dele.

Também foi muito tensa a travessia para o lado de Beirute controlada pelos palestinos, no dia seguinte, no mesmo horário, por volta do meio-dia, quando houve novo cessar fogo. Só uma das duas passagens na Linha Verde estava funcionando – a do Musée, em referência à proximidade ao Museu Sursuk, de arte fenícia, vizinho à Embaixada da França, ao Hippodrome du Parc e ao Bois de Beyrouth. Estava bloqueada a outra passagem, a da Gallerie Semaan, na região da estrada que liga Beirute a Damasco, controlada pelos israelenses. Era muito arriscado atravessar de um setor para o outro. Os milicianos cristãos, do lado Leste, e os palestinos, do lado Oeste, que controlavam a passagem do Museu Sursuk, estavam trocando tiros até minutos antes. Eles praticamente conseguiam em alguns momentos, mesmo entrincheirados, ver o rosto um do outro. Era muito tenso e havia gritaria de lado a lado. Sobretudo era sempre suspeito o ‘estrangeiro’, mesmo jornalista em missão, como eu, que cruzava pela primeira vez, de um setor para o outro. Mas, por sorte, contei com a ajuda de um colega da TV japonesa, o então veterano Osamu Yanagisawa, correspondente no Cairo da célebre NHK para todo o Oriente Médio – conforme o cartão de visita dele, em inglês, que tenho até hoje. Ele falava com bastante fluência o árabe e me salvou do interrogatório dos palestinos – estes, agitados e desconfiados, insistiam em pedir a minha credencial da OLP. Documento que só conseguiria no dia seguinte à Rue Fakhani – na sede da própria OLP. Os homens de Arafat não ‘reconheciam’ a autoridade libanesa e, por isso, não aceitavam a minha credencial fornecida na véspera pelo Ministério da Defesa do Líbano. Muito menos ainda a credencial das Forces Libanaises, que também fizera na véspera, e, naquela travessia, estava dobrada e escondida num bolso da calça.

Conservo também ainda comigo as três credenciais daquele momento do longo conflito libanês que ainda se arrastaria por mais oito anos. Eram feitas em folhas de papel e precisavam ser exibidas, corretamente, em todos os check-points. Estávamos no coração do conflito libanês e ai de quem se confundisse, no setor palestino, e mostrasse le papier das forças de Bachir Gemayel. A OLP tinha se transformado, com apoio da maioria dos próprios muçulmanos libaneses, um estado independente dentro do próprio Líbano. Mas naquelas próximas semanas, acuados pelas tropas de Sharon, que acabaram por ocupar toda Beirute, os milicianos palestinos foram obrigados a deixar o Líbano – sem apoio, inclusive, da Síria, que havia chegado ao país no primeiro ano da guerra. Os confrontos se prolongariam com o assassinato de Bachir Gemayel às vésperas de tomar posse como novo presidente do país, e se tornariam ainda mais dramáticos nos anos seguintes, quando, já ao final da década,  os próprios cristãos se dividiram em dois campos. Um era controlado pelo general Michel Aoun, então presidente interino do Líbano, após o fim do mandato de Amin Gemayel, o outro, pelas Forces Libanaises, já comandadas pelo hakim Samir Geagea. Os combates se sucederam até o final de 1990 – e a guerra de quinze anos, afinal, terminou. O Líbano vive desde 1991 em relativa paz e manteve a sua preciosa democracia, que, mesmo durante o largo período do conflito, foi preservada nas regiões controladas pelos cristãos.

O Líbano hoje, aos olhos do mundo, parece um verdadeiro paraíso se comparado aos vizinhos de língua árabe. Até quando? Chi lo sa… Quem sabe. Espero que a democracia libanesa possa resistir e se transformar num valor universal para todos os povos de idioma árabe – e que os cristãos de nações históricas, como a Síria, Iraque, Jordânia, Egito, Sudão, Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos, por fim, tornem-se, como no Líbano, cidadãos iguais aos compatriotas de fé maometana. Não apenas desprezíveis dhimmis, isto é, cidadãos de segunda classe.

Insallah!

* Este artigo é baseado no primeiro capítulo do livro Estrela de Belém, do jornalista Albino Castro-Rabay, ainda inédito, que relata o calvário das minorias cristãs do Oriente.

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