De Carona: os pesares da vida de caminhoneiro

Depois de dois meses da greve dos caminhoneiros, movimento que paralisou o Brasil neste ano, ainda se sente as consequências na economia do país. A categoria que transporta a riqueza pelos 8 milhões de quilômetros quadrados do Brasil fez, mais uma vez, a população voltar os olhos para aqueles que nem sempre são lembrados.

A alta no preço diesel foi só o estopim da grande paralisação. Os caminhoneiros enfrentam diariamente diversos percalços na profissão.

O Massa News te convida a percorrer quase 5 mil quilômetros na boleia de um caminhão, em uma viagem de 9 dias. Nossa equipe pegou carona com dois caminhoneiros, Viviane Gonçalves e Márcio Roque, sentiu na pele algumas das grandes dificuldades que eles enfrentam no dia a dia. Durante uma série de reportagens, você vai ver como é a vida dos caminhoneiros. Vai observar como falta infraestrutura no País, que tem mais de 61% das cargas transportadas por rodovias. Vai conhecer as situações de insegurança que esses trabalhadores enfrentam. Vai entender como é a rotina desse profissional.

Tenha uma boa viagem. 

(Imagem: Mariana Lopes)

Se correr o bicho come, se ficar o bicho pega

Era inverno. O sol já tinha se despedido para que a lua minguante tomasse o seu lugar. As luzes da cidade de Paranaguá, a mais antiga do estado do Paraná, já estavam acesas – mas só podiam ser vistas de longe. O chão de areia cinza e molhada, típica de cidade praiana, estava por todo lado. O mar não ficava longe. Distanciando-se, aqui, do clima de “férias no litoral”, é preciso conhecer a realidade dos arredores do porto graneleiro – o maior da América Latina – que não atrairia, nem de longe, os turistas.

“Acelera, acelera! Tem ‘noiado’ do lado. Se eles pegarem a gente, já era! O que ‘tá’ acontecendo que você não anda?”, disse o motorista Márcio Roque, 39, pelo rádio ‘px’ enquanto saía do Porto Paranaguá com o caminhão carregado. O risco era de ser assaltado pelos usuários de drogas do bairro. “Calma, homem! Tem caminhão na frente, quer que eu faça o quê?”, disse, em resposta ao namorado, a motorista Viviane Gonçalves, 40, enquanto tentava sair do meio da periferia onde estavam para não ser alvo de assalto. Medo, tensão e risco de perder a carga é a situação mais comum naquele ambiente.

Pouco antes das falas citadas, Viviane alertou e fez um pedido à repórter Mariana.

“Será que você pode guardar a câmera enquanto estivermos nesse porto? É que pode chamar a atenção dos ladrões e é perigoso. Os ‘noiados’ ficam esperando que a gente saia com a carga para puxarem a nossa bica [pedaço de madeira que fica embaixo da carreta e que, se puxada, a carga cai pelo buraco que fica no local].”

A resposta foi positiva e o equipamento fotográfico foi guardado. Enquanto isso, o momento era de medo.

O namorado afirma que não liga, mas, nas primeiras falas, pedindo para que Viviane acelere, é possível perceber a insegurança do homem. A caminhoneira deixou claro desde o início que a situação é preocupante em Paranaguá. Ninguém quer e nem pode perder a carga, mas também não acham certo dar dinheiro aos usuários da redondeza para que eles os “liberem”.

A opção dada para poderem sair do porto sem riscos e irem embora em paz, vem do guarda do porto. Ele dizia que dava “segurança” até o fim da rua mais perigosa, acompanhando o caminhão com a própria motocicleta. Segundo o oficial, isso impediria que os drogados chegassem perto. O preço? R$ 10. Quando Roque soube disso, ficou indignado com a “oferta” e, por orgulho, não pagou o “cachê” ao guarda. A outra opção era a de ligar para a polícia e serem escoltados até o final do pior trecho, mas isso podia demorar. Como queriam sair do porto o quanto antes, e Roque dizia que não aconteceria nada, decidiram ir embora “sem segurança”. Por isso, toda a tensão no porto foi inevitável. Até deixarem o lugar de risco, Viviane não conversava e nem sorria – duas das ações que mais fez durante toda a viagem.

A atenção de olhar para os retrovisores era redobrada e os olhos ficaram arregalados. Esse foi um dos momentos mais difíceis da viagem feita desde o Sul, até o Centro-Oeste do Brasil, com duração de nove dias. A partida foi de Maringá (PR) e o destino para o primeiro carregamento foi em Diamantino (MT). De lá, os itinerantes iriam descarregar em São Francisco do Sul (SC). Todavia, no meio da viagem descobriram que após o descarregamento, eles fariam novo carregamento, desta vez, no temido destino de Porto Paranaguá, apresentado no início da reportagem. Só então é que poderiam retornar a Maringá.

Prejuízo para o profissional do volante… prejuízo para o Brasil

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Era pra ser um dia comum de trabalho. Ericksson Rodrigo saiu de casa, em Ponta Grossa, para mais um carregamento. Depois de 30 quilômetros rodados, ouviu um barulho no caminhão e decidiu parar para ver o que era. Ao descer, um carro parou ao lado dele e assaltantes colocaram um saco na cabeça do caminhoneiro. Ele foi empurrado para dentro do veículo e levado para bem longe dali. Sem poder ver nada. Sem poder lutar pela própria vida.

Ericksson ficou preso e encapuzado em uma casa de madeira a noite toda. Ao amanhecer colocaram o homem novamente no carro, dirigiram um pouco e o abandonaram. O caminhoneiro não sabia onde estava. Andou até uma estrada de terra, até que encontrar um homem que o socorreu e o levou para a delegacia. Ele estava em Teixeira Soares (PR), 80 quilômetros de onde o pegaram. Este é um dos relatos das vítimas de roubos de cargas de caminhões que acontecem constantemente em todo o Brasil.

Além das cenas de terror vividas por Ericksson e o trauma que precisou superar para voltar a trabalhar, o prejuízo em cima da carga e caminhão roubados seria grande se não fosse o seguro.

“Depois de dois dias fui até lá para tirar o cavalo mecânico na polícia. O bitrem e a carga até hoje não foram encontrados. Se não fosse o seguro, o prejuízo seria em torno de 60 mil reais do bitrem e 69 mil reais da carga”, disse o patrão de Ericksson, Alessandro Bernardi.

A história acima é só mais uma das inseguranças vivenciadas pelos motoristas. A situação deixa essa classe exposta ao incerto, totalmente desamparada e sem possíveis reações. Afinal, o profissional precisa da carga para tirar o próprio sustento, além de não poder se colocar em risco.

O Brasil está entre os dez países mais perigosos para se fazer o transporte de cargas. O levantamento feito pelo comitê de transporte de cargas do Reino Unido, em 2017, fez a pesquisa com 57 países e o Brasil ocupava o 6º lugar. O país só fica atrás da Síria, Líbia, Iêmen, Afeganistão e Sudão do Sul. Ou seja, se fossem excluídos as regiões em situação de guerra, o Brasil estaria no topo do ranking.

(Infográfico: Mariana Lopes)

 No geral, a cada 88 caminhões em circulação, um é roubado. Isso significa que até dezembro de 2016, acontecia uma abordagem criminosa a cada 23 minutos, de acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro.

(Infográfico: Mariana Lopes)

Toda essa insegurança das rodovias brasileiras constitui um problema que há muito tempo assola o País. Só no ano passado os roubos de carga custaram R$ R$ 2.056.475 bilhões de prejuízo à economia brasileira. Crime que prejudica toda a cadeia do transporte nacional que acaba perdendo competitividade ao transferir os custos extras para a população no preço final. Dependendo do tamanho do risco de perda da carga, o valor do seguro é maior e as demais medidas de segurança são refletidas no valor do produto.

(Infográfico: Mariana Lopes)

Fonte: Massa News

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