Cruz de Cristo

por Albino Castro

 (Para edição de PORTUGAL EM FOCO de 28 de fevereiro de 2013)

 Às 17 horas desta quinta-feira, 28 de fevereiro, horário romano, quatro horas à frente do Brasil, na Santa Sé, na colina romana do Vaticano, Bento XVI deixará pela última vez, como Papa da Igreja Católica, o Palácio Apostólico, ao lado da colunata da Basílica de São Pedro, cumprindo, assim, a renúncia anunciada no último dia 11, segunda-feira de carnaval – uma grande surpresa para os fieis de todo o mundo. A Igreja se prepara agora para que um conclave, que terá inicio nos próximos dias, eleja o novo Sumo Pontífice. Entre os 117 cardeais que participarão da votação na Capela Sistina, todos com  idade até 80 anos, estão sete representantes de língua portuguesa, isto é, os portugueses Dom José Cruz Policarpo, de 76 anos, Patriarca de Lisboa, e Dom Manuel Monteiro de Castro, 74, Secretário na Cúria Romana da Congregação para os Bispos, e os brasileiros Dom Geraldo Majella, 79, Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Claudio Humes, 78, Prefeito na Cúria Romana da Congregação para o Clero, Dom Raymundo Damasceno, 75, Arcebispo de Aparecida do Norte, Dom José Braz de Aviz, 65, Prefeito na Cúria Romana da Congregação para os Institutos da Vida Consagrada e as Sociedades da Vida Apostólica, e Dom Odilo Scherer, 63, Arcebispo de São Paulo.

Mais quatro cardeais que participarão do conclave de março têm origem em países convertidos pelos portugueses, entre os séculos XV e XVII, na Ásia e em África, onde lá chegaram com as inconfundíveis caravelas com a Cruz de Cristo. Três são os representantes da antiga Índia portuguesa, Dom Ivan Dias, 76 anos, e Dom Oswald Gracias, 68, ambos de Bombaim, cidade rebatizada hoje para Mumbai pelo regime indiano, e Dom Telesphore Toppo, 73, de Ranchi. Bombaim, como Ranchi, foram evangelizadas pelos Jesuítas de São Francisco Xavier – sendo que a primeira, em 1661, foi presenteada pelos portugueses à Inglaterra como dote da Princesa Catarina de Bragança ao se casar  com Charles II. Da África negra, continente que os lusitanos evangelizaram de costa a costa, não participará do conclave, desta feita, nenhum prelado dos países de língua portuguesa. Porém, o mais cotado para Papa, entre os cardeais negros africanos, é Dom Peter Kodwo Appiah Turson, de 64 anos, Presidente na Cúria Romana da Congregação Pontifícia para Justiça e Paz – natural de Gana, país de maioria muçulmana (38 por cento da população) e no qual os católicos, convertidos pelos portugueses, representam doze por cento.

Turson foi arcebispo de Cape Coast, cidade fundada por Portugal com o nome de Cabo da Costa, situada a dez quilômetros do magnífico Castelo de São Jorge da Mina, construído em 1481 pelos lusitanos e declarado, em 1979, Patrimônio Mundial pela UNESCO. Ele é o mais forte candidato a Papa, segundo alguns vaticanistas italianos,  não só entre os africanos, porém, também entre todos os cardeais de língua portuguesa e os  indianos de Bombaim e Ranchi – a provar, assim, a universalidade da presença dos soberanos das casas de Avis e Bragança nos quatro continentes.

Era português também, convém recordar, um dos mais eruditos papas da Idade Média, João XXI, discípulo de dois dos maiores doutores da Igreja, São Tomás de Aquino e de São Boaventura. Eleito em 20 de setembro de 1276, na papalina Viterbo medieval, próxima a Roma, João XXI, titulo adotado pelo lisboeta Pedro Julião, morreria em 16 de maio 1277, vítima de ferimentos causados ao ser atingido pelo desmoronamento de uma ala do Palácio Pontifício da cidade, então sede e residência dos papas. Muito se deve a Portugal, com certeza, a grande expansão do catolicismo no Brasil, África e Ásia.

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