Como o Santo de Assis e São Francisco Xavier

Papa portenho tem paixões simples como indica o nome que adotou

 por Albino Castro – Rabay

(para Carta do Líbano – Edição de Abril de 2013)

 Eleito sucessor de Bento XVI, dia 13 de março último, o jesuíta argentino Jorge Mario Bergoglio, de 77 anos, arcebispo de Buenos Aires, surpreendeu à grande maioria de ‘vaticanistas’, entre os quais, humildemente, me incluo, que acreditava serem os favoritos no Conclave o italiano Angelo Scola, Arcebispo de Milão, e o brasileiro Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. O novo Papa, entretanto, surpreendeu, sobretudo, ao adotar o nome de Francisco, em clara homenagem ao místico São Francisco de Assis (1182 – 1226), fundador dos franciscanos, voltado à natureza e aos pobres. Mas também uma referência ao venerável São Francisco Xavier (1506 – 1552), um dos criadores da Companhia de Jesus, portanto, jesuíta, como o cardeal Bergoglio, e grande evangelizador dos povos asiáticos da Índia (e do atual Paquistão), Malásia, China, Coréia, Japão e Indonésia – por determinação da Coroa portuguesa da iluminada dinastia dos Avis. O pontificado de Francisco, a partir do nome que escolheu, usado pela primeira vez por um papa, bem como pelos pronunciamentos iniciais e pela quebra de protocolos, parece voltado, principalmente, ao meio ambiente, tema ainda mais atual hoje do que na Idade Média franciscana, aos pobres e à evangelização. Ou, em muitos casos, a uma re-evangelização católica, como na própria América Latina, região convertida em grande parte pelos jesuítas, em defesa da contra-reforma, mas que hoje enfrenta o avanço ‘reformista’ dos evangélicos.

 Foi prodigiosa a evangelização dos jesuítas em todas as Américas. Do Canadá à Patagônia argentina e chilena. O Brasil mesmo, a rigor, foi fundado no século XVI por fervorosos jesuítas, como o padre Manoel da Nóbrega (1517 – 1570) e o Beato José de Anchieta (1534 – 1597) – estes vislumbraram no Planalto Paulista, acima de São Vicente e Santos, uma área mais protegida dos corsários e, cá, começaram a construir, a partir do pátio de um colégio, a maior metrópole de toda a América Latina, São Paulo, a mais cosmopolita capital do Novo Mundo ibérico. Ao Norte de São Paulo, na então São Salvador da Bahia de Todos os Santos, atualmente só Salvador, viveu, pregou e escreveu preciosos sermões um dos grandes doutores da Companhia de Jesus, o padre António Vieira (1608 – 1697), maior homem de letras português do século XVII. Jesuítas, como o espanhol de Navarra, São Francisco Xavier, e o seu sucessor na Ásia, o italiano padre Matteo Ricci (1552 – 1610), também a serviço dos soberanos de Avis, conseguiram converter civilizações mais antigas que as européias, como a Índia e a China, e ainda em nossos dias são reverenciados em todo o sudeste daquele continente. O corpo de São Francisco Xavier continua exposto numa caixa de vidro e prata, na Basílica do Bom Jesus, do Patriarcado de Goa, na Índia, e cujo altar desde 1617 é local de peregrinação – mesmo depois que a Índia, em 1960, retomou os territórios que desde o século XVI eram administrados pelos portugueses. Tamanha foi a influência de Ricci na corte dos mandarins que se tornou o primeiro estrangeiro a ser sepultado em Pequim, quando, à época, os cristãos só eram enterrados no território português de Macau.

 Igualmente importante foi a presença dos jesuítas no Líbano do século XIX. A Companhia de Jesus fundou ali, em 1875, um dos maiores símbolos de Al-Nahda, o Renascimento Árabe, a respeitadíssima Université Saint Joseph, no coração de uma Beirute ainda ocupada pelas tropas dos sultões otomanos da Turquia e governada, a partir de seu belo serail, o palácio da administração istambuliota, que fazia os libaneses a cumprir as ordens da Sublime Porta da antiga Constantinopla. Pela Saint Joseph passaram sete presidentes da República do País dos Cedros – Camille Chamoun (de 1952 a 1958), Charles Helou (1964 a 1970), Elias Sarkis (1976 a 1982), os irmãos Bachir Gemayel (eleito em 1982 e assassinado às vésperas da posse) e Amin Gemayel (1982 a 1988), Rene Moawad (morto dezessete dias depois de ser eleito em 1989) e Elias Haraui (1989 a 1998). O escritor libanês Amin Malouf, de 64 anos, também foi aluno da Saint Joseph. Os jesuítas incentivaram os católicos maronitas e melkitas a fundarem jornais e editoras, assim como publicarem poemas, criando, desse modo, um novo esplendor do idioma árabe, estendendo-se, em seguida, ao Cairo e à Alexandria, cidades egípcias que à época contavam com inúmeros emigrantes libaneses cristãos – com grande maioria de maronitas. Mas também melkitas, quase todos da amadíssima cidade de Zahlè, no Vale da Bekaa. Estes mantêm, ainda hoje, no tradicional bairro cairota de Heliópolis a imponente catedral greco-católica, na qual, com nostalgia, recordo a Missa de Ano Novo, à meia-noite de 1996 para 1997, celebrada pelo então Patriarca Máximos V Hakim (1908 – 2000), à qual, eu e a minha esposa, Da. Andrea, tivemos a honra de assistir. Os jesuítas incentivaram também o cultivo no Líbano de uvas para a fabricação de vinhos, entre os quais, se destacam as de Ksara, região vinícola próxima à Zahlè e à fronteira com a Síria.

 O Papa Francisco irá se inspirar, seguramente, nos velhos jesuítas que, entre os séculos XIX e XX, percorreram as montanhas e as planícies do Líbano e da Síria, para além das grandes metrópoles do Egito, para tentar contribuir, decisivamente, por um entendimento entre as minorias cristãs do Oriente Médio e os milhões de muçulmanos, que há mais de dois anos iniciaram a chamada Primavera Árabe, eufemismo, quase sempre, para a imposição de ditaduras teocráticas baseadas nas leis da charia, ponto de honra do fundamentalismo islâmico – seja de origem salafista ou vinculado às irmandades que controlam atualmente os regimes do Egito, Turquia, Líbia, Iêmen, Tunísia e, em grande parte, também do Marrocos, do primeiro ministro Abdelilah Benkirane. Não será nada fácil tentar uma conciliação histórica com los hermanos muçulmanos  para o Papa Francisco, enviado do ‘fim do mundo’, isto é, do extremo Sul da América Latina, como ele mesmo se referiu, em tom de blague, pelo fato de ser argentino e ter pouquíssima convivência com os conflitos de natureza religiosa. O Papa Francisco foi um prelado formado em meio à luta de classes, na Argentina natal, aprendendo a conviver no dia-a-dia com a influência da Teologia da Libertação, tão combatida pelo antecessor Bento XVI, e com setores conservadores do país, que protagonizaram e apoiaram, entre 1976 e 1982, um perverso regime militar que causou o ‘desaparecimento’ e a morte de milhares de opositores peronistas e extremistas de esquerda.

 Único cardeal do Oriente Médio presente ao conclave que elegeu o Papa Francisco foi o Patriarca Maronita, o libanês Bechara Boutros Raï, de 73 anos, sucessor em 15 de março de 2011 de outro compatriota, o Patriarca Emérito Nasrallah Boutros Sfeir, de 93 anos. Também Raï foi aluno dos jesuítas no Líbano e boas relações manteve sempre com a Université Saint Joseph – tendo sido bem recebido, ao ser eleito, inclusive, pela  prestigiosa revista Civiltà Cattolica, editada na capital italiana. Vinculada aos mestres  da Companhia de Jesus da celebrada Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, Civiltà Cattolica, revista teológica dos jesuítas, é considerada por muitos, inclusive por mim, a mais influente publicação de pensamento cristão em todo o mundo. Ex-Arcebispo de Byblos, de 1990 a 2011, o Patriarca Raï chegou a constar, logo após a renúncia de Bento XVI, como um dos possíveis candidatos à sucessão do trono de São Pedro, e, nos próximos tempos, será, provavelmente, um dos  interlocutores do Papa Francisco nas questões do Oriente Médio – especialmente a partir do desenlace do sangrento conflito na Síria, onde grande parte da população cristã da histórica cidade de Aleppo, a segunda do país, já foi obrigada a abandonar os lares para escapar aos ataques do fundamentalismo dos grupos salafistas sunitas, que atacam a partir da fronteira com a Turquia, distante apenas trinta quilômetros.

 São alvos dos ‘rebeldes’ os centenários bairros cristãos alepinos de Telal, Al Midan, Al Solymannieh e Villaen – símbolos nestes anos de uma heróica resistência, como no mítico quartier cristão de Achrafieh, em Beirute, de 1975 a 1990, quando esteve na mira dos grupos armados palestinos e de muçulmanos libaneses, bem como das tropas de ocupação da Síria e de diferentes milícias islâmicas dos vizinhos países de língua árabe. Estes ataques contra Achrafieh contaram, muitas vezes, com reforços vindos da Europa, como ‘voluntários’, sobretudo da então Alemanha Ocidental, vinculados à banda terrorista esquerdista Baader-Meinhof, conforme pude constatar, no verão libanês de 1982, nas ruas então ‘islamizadas’ do bairro de Hamra, na capital do Líbano. Lá também estava, nas garagens dos edifícios bombardeados da Rue Fakhani, o quartel-general ‘móvel’ do chefe palestino, o egípcio Yasser Arafat (1929 – 2004), comandante da guerra contra os libaneses cristãos.

 Ao buscar inspiração, corajosamente, em dois dos maiores símbolos do cristianismo do segundo milênio, São Francisco de Assis e São Francisco Xavier, ao Papa Francisco não basta, no entanto, despojar-se dos sinais de riqueza – como trocar o tradicional anel de ouro por um de prata, não vestir solenemente o manto escarlate papalino decorado com peles, usado por Bento XVI, ou não aceitar residir no Palácio Apostólico da Santa Sé. Ele enfrentará desafios quase insuperáveis à luz dos dogmas da Igreja, em todos os continentes, pois se aqui, na América Latina, é preciso conter a ‘fuga’ de católicos para as igrejas evangélicas, na Europa, em contrapartida, aumenta a ausência de fé, enquanto em grandes áreas da África e da Ásia, como vimos, o islã se torna mais fundamentalista e hostil aos cristãos. Obstáculos que certamente contribuíram para que o Papa Bento XVI rompesse com uma tradição da Igreja ao renunciar ao pontificado. Que o filho de imigrantes da região italiana do Piemonte, o Papa Francisco, nascido no portenho bairro de Flores, homem de paixões simples, torcedor do querido San Lorenzo de Almagro, um dos mais tradicionais clubes de sua antiga diocese, consiga superar as dificuldades que a Igreja enfrenta no início do terceiro milênio!

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