Aplicativos de carga e a tecnologia para o caminhoneiro no século XXI.

Novas tecnologias favorecem a busca por cargas e facilitam os negócios entre embarcadores e transportadores

Sem dúvida alguma, o principal modal de transporte no Brasil é o rodoviário. Não é raro lermos que o setor do transporte rodoviário de cargas capta grande parte do orçamento logístico do país, sendo responsável também, pelo transporte de mais da metade das cargas disponíveis no mercado.

Os dados do Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas (RNTRC) revelam que, em 2016, mais de 700 mil registros foram emitidos para caminhoneiros autônomos, o que faz desse grupo um dos grandes protagonistas do TRC.

No entanto, de acordo com o Anuário do Transporte elaborado em 2017 pela Confederação Nacional dos Transportes, existem mais de 110 mil empresas de transporte de carga que concentram grande parte dos veículos que compõem a frota brasileira. Foram mais de 1 milhão de registros realizados em 2017, de acordo com a ANTT.

Além disso, o Anuário Estatístico de Transportes, elaborado pelo Ministério dos Transportes, mostra que, apesar da crise econômica identificada nos últimos anos e da queda na produção de caminhões, houve um significativo aumento na participação dos veículos pesados de carga na frota nacional no período compreendido entre 2010 e 2016. Isso se dá em função das políticas de incentivo à indústria automobilística, com a concessão de crédito e isenções tributária existentes até 2014.

Assim, houve uma variação positiva do número de caminhões na frota de veículos no país, que cresceu em torno de 28,8%. Em 2016, o Denatran registrou uma participação de quase 4% de caminhões em toda frota nacional que também é composta por veículos de passeio, utilitários, motos, ônibus e tratores.

Mas nem só de números positivos vive o TRC brasileiro. Desde 2013, a Anfavea vem registrando queda na produção de caminhões, depois de um período de ótimos números, revelado entre 2011 e 2013.

Recentemente, a Confederação Nacional do Transporte elaborou um estudo aprofundado sobre as questões infra estruturais das rodovias brasileiras. Segundo a entidade, a qualidade e o crescimento da malha rodoviária não acompanham a demanda de infraestrutura para o escoamento da produção nem para o deslocamento de pessoas. A frota de veículos aumentou 194,1%, de 2001 para 2016, mas as rodovias continuam com graves problemas de qualidade, comprometendo a segurança. Durante a elaboração do estudo, mais da metade dos trechos avaliados pela CNT apresentaram problemas. Do total da malha, 1,7 milhão de km, apenas 12,2% (210.618,8 km) têm pavimento.

Além disso, de acordo com a ANTT, o Brasil é um dos países com a frota de caminhões com a idade média mais elevada do mundo. Os veículos para transporte de carga possuem em média 15 anos em qualquer região do país. Também se identifica que a frota das transportadoras é mais jovem que a dos caminhoneiros autônomos e uma das razões para isso pode ser a baixa remuneração ou as poucas facilidades de créditos para esses trabalhadores.

Dentre tantos problemas que fazem parte do dia a dia daqueles que trabalham no TRC brasileiro está também o da contratação das cargas e do preço dos fretes. Muito já se discutiu sobre a necessidade de se criarem parâmetros mais confiáveis e realistas para o cálculo da tabela de frete, mas a percepção geral de analistas, caminhoneiros e empresários, é a de que ele segue defasado. Quanto a essa questão, também fica evidente a desvantagem dos caminhoneiros autônomos que, muitas vezes, não contam com a estrutura necessária para atender as exigências dos embarcadores.

Uma das queixas mais recorrentes no setor também é a de que os agenciadores de cargas ficam com uma boa fatia do valor do frete. Vale lembrar que a prática de agenciamento de carga não conta com nenhuma legislação específica para regulá-la. Esse também é um dos temas que envolvem as discussões sobre o marco regulatório do TRC. Por essa falta de legislação especifica, quando não praticado com idoneidade e responsabilidade, o agenciamento de cargas apresenta muitas perdas financeiras e transtornos aos transportadores, sobretudo para os autônomos.

Uma das alternativas criadas para driblar essas dificuldades foram os bancos eletrônicos de cargas. Surgidas no princípio do século XXI, essas ferramentas buscaram fazer uso das novas tecnologias e do avanço da internet para proporcionar rapidez e segurança no acesso aos fretes.

No Brasil, uma das empresas no ramo é a Central do Transporte, criada em 2005. Seu objetivo principal é eliminar a mediação dos agenciadores de cargas e conectar os transportadores diretamente com os embarcadores, potencializando os lucros e gerando maior rapidez na comunicação entre as pontas.

Um dos instrumentos para a facilitação da comunicação foi justamente a internet. No entanto, nos primeiros anos, a empresa se deparou com muitas dificuldades. Uma delas foi a desconfiança nutrida pelos caminhoneiros em relação as novas tecnologias. Acostumados com o agenciamento de cargas e sem muita familiaridade com a internet, muitos trabalhadores da estrada demoraram a incorporar a internet como uma ferramenta de trabalho.

Carlos Tenório, caminhoneiro há mais de 30 anos e usuário da plataforma, conta que, quando conheceu a Central do Transporte, passou por um processo de adaptação e aceitação da ferramenta eletrônica. “O mundo tá mudando muito rápido e a gente nunca foi acostumado a mexer na internet. Então eu pedia para meus filhos que me ajudavam a entender como funcionava o site. Com o tempo, eu fui entendendo como era e pegando confiança”, explicou.

Tenório ainda contou que já teve muitos problemas com agenciadores de cargas na sua profissão de caminhoneiro. “Às vezes eu quase não ganhava nada no frete que eu pegava, porque tirava o pedágio, o diesel, a parte do agenciador e sobrava muito pouco. O problema é que, se a gente não aceitasse esse pouco, poderia ficar muitos dias com o caminhão parado ou rodar vazio”, comentou o caminhoneiro.

Atualmente, o panorama mudou. A nova geração de caminhoneiros já utiliza em larga escala os smartphones e as novas tecnologias, como a internet e os softwares desenvolvidos para gestão de pagamentos, gastos e manutenção do caminhão. A tecnologia embarcada também está presente nos novos veículos e proporciona novos métodos para potencializar os lucros, administrar os valores do frete e melhorar a segurança na condução.

Segundo a pesquisa “Perfil do Caminhoneiro”, realizada pela CNT, em 2016, dos 1066 caminhoneiros entrevistados, 65,9% utiliza a internet em suas viagens. Dentre os caminhoneiros autônomos, a taxa é de 64,5%, quase o mesmo índice de utilização apresentado pelos empregados de frota (68,8%). Cerca de 77% desses caminhoneiros também respondeu que acessa a internet através do celular, enquanto que 53% respondeu que o faz desde sua casa – lembrando que os entrevistados podiam marcar mais de uma opção.

Os números significam, portanto, que o caminhoneiro, seja autônomo, seja empregado, está cada vez mais conectado e tem acesso aos novos aparelhos, como computadores e smartphones. Além disso, significam que a velha geração tem se adaptado as rápidas mudanças.

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Consorcio DAF

Acompanhando esse avanço tecnológico, a Central do Transporte lançou o CT Carga, aplicativo que conecta ainda mais rapidamente o usuário aos embarcadores. Com layout simplificado, a ferramenta ocupa pouco espaço da memória dos smartphones e pode ser utilizada com um simples sinal de internet móvel. Além disso, foi pensada para simplificar a plataforma de busca oferecendo opções de filtro que geram resultados específicos para atender as necessidades dos caminhoneiros.

Carlos Tenório também é usuário do aplicativo. Para ele, é uma maneira mais fácil de buscar as cargas e não demanda o uso do computador. “Tem alguns postos de combustíveis que a gente para que não tem internet, por isso que pelo telefone tudo fica mais fácil”, avaliou.

Atualmente, existe uma série de aplicativos disponíveis para caminhoneiros e transportadoras que buscam fretes. Dentre os serviços disponíveis no mercado estão o TruckPad, Pega Carga, Sontra Cargo, entre outros. Recentemente, a Cargo X passou a realizar serviços de transporte a partir da contratação de caminhoneiros por quem tem alguma carga disponível, como se fosse uma espécie de Uber.

No geral, alguns aplicativos oferecem sistemas de filtro e facilidades aos usuários como o rastreamento da carga e um ranking de pontuação de transportadores e caminhoneiros, a fim de qualificar os serviços prestados. Os embarcadores também podem ser avaliados e, quanto maior o fluxo de cargas disponibilizadas, menor a chance de se rodar vazio.

Uma das principais vantagens desses aplicativos é justamente acabar com a mediação dos agenciadores que “captam” parte do valor do frete. Quando realizada sem intermediários, a negociação entre embarcadores e transportadores, seja uma empresa ou um caminhoneiro, tende a ser mais transparente.

Isso não significa, porém, que as empresas são responsáveis por mediar os conflitos entre transportadores e embarcadores. Nesse sentido, os usuários dos aplicativos de carga, sejam transportadoras, caminhoneiros, embarcadores, precisam estar cientes de que toda transação e/ou negociação é feita diretamente entre as partes. Por isso, as empresas que gerenciam e disponibilizam os aplicativos não são totalmente responsáveis caso ocorra algum descumprimento do acordo de contratação do frete por uma das partes. Os aplicativos são apenas uma ferramenta de disponibilização de cargas sem autonomia e competência jurídica para resolver possíveis problemas.
Justamente por isso, a disponibilização das cargas e sua contratação por parte de um transportador tende a ser menos complexa e conflituosa quando realizada através de um aplicativo.

Dentro do universo do TRC, a verdade é que não sou poucos os problemas entre transportadores e embarcadores. Há um conflito latente sempre que acontece uma negociação de frete por várias razões. A principal delas é o valor, que muitas vezes não contempla nem uma parte, nem a outra. Uma outra questão é o pagamento dos custos do transporte por parte do embarcador, como o pedágio, o combustível, etc; o que responde, em alguns casos, a leis que regulam esse tipo de obrigação. Outros problemas podem ser ocasionados por não cumprimento de prazos, quebra de veículos, eventual roubo de carga ou acidente.

No geral, a principal queixa dos caminhoneiros autônomos por exemplo, é que muitos embarcadores não pagam os pedágios conforme a lei do vale pedágio, que visa desonerar o transportador desse custo. Também recebemos reclamações de que ainda há a prática da chamada “carta-frete” em muitos lugares do país. Os autônomos ainda denunciam que muitas vezes os prazos de entrega são impraticáveis, levando a exaustivas jornadas e condições pouco seguras de trabalho.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Abralog (Associação Brasileira de Logística), que buscou investigar o que queriam os embarcadores de carga em 2015, as reclamações dos mesmos em relação aos transportadores se referem a temas como: falta de informações precisas sobre o posicionamento da carga, oscilações na qualidade do serviço ao longo do ano, confiabilidade no prazo de entrega e preço.

A pesquisa também mostrou que os embarcadores buscavam prazo de entrega, preço, informação e qualidade, dentre os principais requisitos para a contratação de um transporte para suas cargas.

A pesquisa ouviu 68 empresas nas áreas da indústria, comércio e serviço, que tinham, em 2015, uma disponibilidade de cargas em torno de 8 milhões de toneladas por ano com valor de mercadoria de R$ 170 bilhões ao ano (R$ 21,00/kg). Dentro os principais produtos disponibilizados pelas empresas pesquisadas estão alimentos e bebidas, produtos farmacêuticos e itens cosméticos.

Num mercado de distribuição cada vez mais complexo, ou seja, com mais canais, cobrindo mais interiores e periferias, os aplicativos são uma importante ferramenta para a inteligência logística. O desenvolvimento da tecnologia pode garantir entregas mais rápidas, cumprimento de prazo e o rastreio do serviço.

No entanto, é preciso atentar para alguns procedimentos antes de contratar um frete ou um transportador para sua carga. Em primeiro lugar, é preciso utilizar um aplicativo confiável, que seja consolidado no mercado e de boas referências.

Se você for um caminhoneiro ou uma transportadora, também é aconselhável que peça todos os detalhes da carga disponível antes de contratá-la e que busque referências sobre o embarcador. Caso você tenha uma carga disponível, também deve pedir o máximo de informações sobre seu transportador.

Também não é aconselhável aceitar transportar uma carga caso todos os detalhes do negócio não contemplem as expectativas de ambas as partes. Ao realizar um serviço que frustre os anseios de negócios, o caminhoneiro, transportadora ou embarcador corre o risco de romper o acordo ou prestar um mal serviço por não se sentir contemplado com o trabalho.

Desconfie de preços exorbitantes. Não se aconselha, portanto, nem fechar negócios que estejam aquém das expectativas, nem que pareçam muito além da realidade praticada pelo setor. É sempre bom lembrar-se da expressão: “quando a esmola é muita, o santo desconfia”.

Por último, recomendamos estabelecer relações de parceria, confiança e fidelização dos parceiros. Quando ambas as partes ficam satisfeitas com o negócio realizado, fica mais fácil de gerar oportunidades futuras. Isso facilita a contratação dos fretes e cria uma relação de igualdade entre as partes.

No geral, portanto, os aplicativos de cargas tendem a ser boas ferramentas de trabalho, sobretudo para os caminhoneiros autônomos. Quando utilizados de maneira responsável geram retornos significativos e permitem a transparência das relações. Então, escolha um e caia na estrada!

Redação Chico da Boleia

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