A Cisplatina de Lecor

 por Albino Castro

Quando, às margens do Ipiranga, o futuro Imperador Dom Pedro I proclama a separação do Brasil da Coroa portuguesa, em sete de setembro de 1822, somente uma voz insurgiu-se, deste lado do Atlântico, contra o grito de Independência ou Morte. Manteve-se fiel ao Império de Portugal, a contrariar o filho do Rei Dom João VI, o General Carlos Frederico Lecor, Governador-Geral da Província Cisplatina, atual República Oriental do Uruguai – que neste 2013 comemora os 185 anos de sua Independência, que aconteceria só em 1828, por imposição da Inglaterra, com a assinatura do Tratado de Montevidéu. Os ingleses fizeram a mediação da disputa pela posse territorial da Província Cisplatina, entre o Rio de Janeiro e Buenos Aires, capital da então recém criada República Argentina, porque visavam, com o ‘estado tampão’, consolidar a livre-navegação na região. Durante os quatro anos seguintes à proclamação de Dom Pedro, que cá é primeiro e em Portugal é quarto, a Cisplatina, que já tinha como capital Montevidéu, foi o único território que permaneceu português nas Américas – mantendo hasteada, à margem oriental do Rio da Prata, a sua bandeira, verde-branca-verde, composta por três listras horizontais. Verde, da dinastia de Bragança, e branca, em alusão à platina do nome, tendo ao centro a Cruz de Cristo sob a esfera armilar.

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O nobre algarvio, General Lecor, nascido em 1764 na cidade de Faro, descendente de uma família com ramificações francesas e alemãs, só se reconciliaria com Pedro I, em 1826, ao aceitar, por fim, que a Cisplatina passasse a fazer parte do Brasil. A Cidade Imperial, como D. Pedro I chamava Montevidéu, fora fundada em 1723 por portugueses vindos dos Açores – como Florianópolis, em Santa Catarina, em 1726, e Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1772. Mas a Montevidéu açoriana teria sido destruída no ano seguinte e novamente fundada pelos espanhóis. O nome Montevidéu é atribuído por muitos ao navegador lusitano Fernão de Magalhães (1440 – 1521), que por lá passou em 1520, na sua memorável viagem de circunavegação. Ao vislumbrar um morro em meio às grandes planícies da região, Magalhães teria pronunciado a frase “monte vi eu”, que, com a corruptela da expressão, passaria a ser o nome da capital uruguaia. Incorporada ao Império Brasileiro, em 1826, Montevidéu passaria a enviar ao Rio de Janeiro, no mesmo ano, representantes provinciais para a  Câmara dos Deputados e ao Senado. A presença cisplatina no parlamento do Brasil causaria a indignação da Argentina, ao ver a sua antiga província, durante o domínio espanhol, integrada ao país vizinho, e a desconfiança de Londres, por temer que o filho rebelde de Dom João VI passasse também a dificultar, como a Buenos Aires do presidente Bernardino Rivadavia, o livre comércio dos ingleses na Bacia do Prata.

A Cisplatina havia sido conquistada em 1817 pelo General Lecor, que contou com o apoio de figuras de destaques na política e no mundo dos negócios de Montevidéu, bem como de duas outras importantes cidades do litoral uruguaio, Maldonado, próxima a Punta del Este, e, estrategicamente diante de Buenos Aires, a lusitaníssima Colônia de Sacramento – fundada, em 1680, pelos portugueses. O feito do General Lecor, um dos heróis da mítica Leal Legião Lusitana, que bateu-se contra a invasão francesa ao Norte de Portugal, estendeu as fronteiras brasileiras até as águas do Prata. É provável que, graças também à lusitanidade de Lecor, que morreria no Rio de Janeiro em 1832, com o título de Visconde de Laguna (Santa Catarina), que lhe foi concedido pelo próprio Imperador Dom Pedro I , o Uruguai de nossos dias mantém, para além de muitíssimos sobrenomes de origem portuguesa, inclusive como o do Loco Abreu, ídolo recente do Botafogo, um doce e suave acento, típico do idioma de Luis de Camões, ao pronunciar o italianizado castelhano falado no Prata. O Uruguai, a velha e querida Cisplatina, é admirado pela gloriosa história e escritores notáveis, como Horacio Quiroga, Juan Carlos Onetti, Mario Benedetti e Eduardo Galeano, mas, sobretudo, respeitado e temido pelos feitos conseguidos nos gramados de futebol.

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