Tese de doutorado aborda questões de gênero, trabalho e identidade

Socióloga Julice Salvagni pegou carona com caminhoneiras para entender a complexa dinâmica de trabalho imposta à elas

A participação das mulheres no transporte rodoviário de cargas vem crescendo a cada dia. Com isso, desafia-se a chamada “divisão sexual do trabalho”, uma realidade imposta por sociedades pautadas em relações de discriminação e desigualdade de gênero, em que homens e mulheres possuem papeis pré-definidos em profissões e ambientes de trabalho.

O transporte rodoviário de cargas, ao lado de outros campos profissionais como as engenharias e a construção civil, é um dos setores cuja maioria dos trabalhadores é do sexo masculino. Isso é resultado de uma dinâmica dupla, que revela a imposição de uma cultura e também de uma lógica mercado.

Por um lado, a mentalidade social construída em nosso país, além das práticas, tende a reproduzir a ideia de que mulheres não são aptas para desenvolverem determinadas funções profissionais, intelectuais ou físicas. Como isso acontece? Explico!

Desde pequenas, as mulheres são muito mais estimuladas a desempenharem tarefas domésticas, além de funções como o cuidado ou a educação do outro, partindo do pressuposto equivocado de que meninas são mais sensíveis e empáticas para isso do que meninos. Assim, uma menina convive muito mais com bonecas e com brinquedos que reproduzem o cotidiano do lar e dos filhos, do que os meninos, que jogam bola, constroem edifícios e são desafiados a salvarem o mundo.

Para além do tipo de estímulo e educação que as crianças recebem nas esferas privadas, que definem o caráter e o papel dos indivíduos moldando suas escolhas desde muito cedo, nossa sociedade sofre o impacto de um mercado que também está pautado pela desigualdade de gênero. De acordo com um recente estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres ganham menos que os homens em todas as ocupações. A média dessa diferença salarial é de mais de 20%. Em alguns casos, como na agricultura pode chegar a mais de 35%1 .

Mas o que leva uma sociedade a pensar que necessariamente mulheres devem ganhar salários menores ou que são menos capazes que homens? Em países que não possuem políticas públicas efetivas em equidade de gênero, como o Brasil, o mercado acaba reproduzindo livremente as discriminações de gênero, ofertando mais e melhores vagas para homens, em alguns setores, e pagando menos para mulheres. As justificativas utilizadas são várias e vão desde uma suposta capacidade física e intelectual inferior das mulheres, como questões biológicas como uma possível gravidez ou amamentação, o que atrapalharia o rendimento das mesmas no trabalho.

Contrariando tudo isso, as mulheres vêm ocupando cada vez mais espaços antes destinados apenas aos homens. E isso tem causado transformações, ainda que lentas, no mercado e nas relações de trabalho. Acompanhando esse novo ritmo, o TRC conta, hoje, com o trabalho de mais mulheres na boleia e em outras atividades de logística, gestão e tecnologia, o que implica pensar nas dificuldades e desafios que elas ainda enfrentam.

Julice Salvagni, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, literalmente pegou carona na boleia de caminhoneiras e realizou um importante estudo sobre a identidade de gênero e questões que envolvem o trabalho itinerante de mulheres pelas estradas do Brasil.

Sua tese de doutorado, intitulada “As caminhoneiras: uma carona nas discussões de gênero, trabalho e identidade”, aborda questões fundamentais para pensarmos a participação das mulheres no setor como a sexualidade, gênero, a família, a masculinização do trabalho, a rotina e os sofrimentos psicossociais que possivelmente podem afetá-las no seu dia a dia.

A socióloga explica que a profissão de caminhoneira tem um papel muito fundamental no rompimento da lógica desigual que atribui papeis distintos a homens e mulheres no ambiente de trabalho e nas tarefas desempenhadas por ambos no dia a dia.

“Nos discursos das caminhoneiras há uma “divisão sexual das atividades que ilustra uma clara herança dos arranjos domésticos em que o homem trabalha na rua, no domínio público, e a mulher no espaço privado da casa” (NUNES, 2014, p.252). Por esta razão, a atividade da caminhoneira vem romper com um modelo de divisão sexual do trabalho, como em outros casos, já que ela não só deixa a casa para trabalhar, como também o faz no ambiente que era do homem”2 escreve Salvagni em sua tese.

Questionar a lógica que ainda impede que mulheres vivam e trabalhem em condições iguais aos dos homens é tarefa urgente para qualquer cidadão e cidadã consciente. Que tal começarmos com a leitura da tese indicada? Ela pode ser acessada através do link: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/144104.

Boa leitura!

1-http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-03/pesquisa-do-ibge-mostra-que-mulher-ganha-menos-em-todas-ocupacoes
2-SALVAGNI, Julice. As caminhoneiras: Uma carona nas discussões de gênero, trabalho e identidade. 2016, p.50.

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