Os galegos de Eça de Queiróz

por Albino Castro

 Os personagens galegos, espanhóis da região da Galícia, ao Norte do Rio Minho, aparecem em diferentes momentos da virtuosa obra literária do maior dos romancistas portugueses do século XIX, célebre mestre da Geração de 1875, José Maria de Eça de Queiróz (1845 – 1900), sobretudo em Os Maias, lançado em 1888, bem como na versão censurada da obra, A Tragédia da Rua das Flores, publicada, tardiamente, em 1980. Os galegos são, invariavelmente, na Lisboa queiroziana, empregados de mesa, que, no Brasil afrancesado do início do século XX, passaram a ser chamados de garçons. Os imigrantes provenientes da Galícia estavam sempre a servir às mesas nas então populares tascas da Baixa pombalina, muitas das quais ainda lá estão, ou no Bairro Alto, do antigo Grêmio Literário e do café A Brasileira, mas, também, à Rua da Misericórdia, nos esplêndidos salões do Restaurante Tavares, fundado em 1784 e que, graças a Deus, continua a funcionar. Esses empregados de mesa eram muito mal tratados nas obras do escritor da Póvoa de Varzim, que os via como ignorantes e, principalmente, parvos. Nada mais injusto e, diríamos hoje, nada mais politicamente incorreto. Cheguei a conhecer, na Baixa pombalina, à Rua dos Correeios, próxima ao Largo do Rossio, em meados dos anos 1970, muitos desses personagens galegos que ainda serviam em casas tradicionais, como no Restaurante João do Grão, fundado por uma família originária da Galícia e onde, ainda hoje, come-se, como gosto, um honesto bacalhau ao grão-de-bico.

 Provavelmente, o desprezo dos lisboetas queirozianos pelos galegos, para além da humilde origem camponesa deles, autênticos labregos, como se denomina no idioma galego os que trabalham a terra, possui raízes na Independência de Portugal, quando Dom Afonso Henriques, em 1128, na memorável Batalha de São Mamede, em Guimarães, derrotou os exércitos da própria mãe, Doña Teresa de León, que era galega e, ao contrário do filho vimarense, pretendia manter o Condado Portucalense ligado à Coroa de Leão, à qual também Galícia e Astúrias estavam à época vinculadas. Com raízes comuns celtas, povos provenientes do Leste europeu que há três mil anos ocuparam a Península Ibérica, galegos e portugueses do Norte, estiveram juntos até a Independência proclamada por Dom Afonso Henriques e chegaram a formar as duas Galécias durante a presença romana, a partir do ano 145 antes de Cristo. A Galécia do  Norte é a atual Região Autônoma espanhola da Galícia e a do Sul, estendia-se da margem portuguesa do Rio Minho ao Rio Mondego, que banha Coimbra – onde está sepultado, no Mosteiro de Santa Cruz, Dom Afonso Henriques. Mais ao Sul estava a mítica Lusitânia, que, então, incluía a atual região espanhola de Extremadura, onde se encontram as províncias de Mérida, Cáceres e Badajoz.

 Juntos, galegos e portugueses do Norte, no século VIII, formaram, com as vulgatas latinas peninsulares, a rica língua galaica, comum às duas Galécias – e mais antigo, portanto, do que o castelhano, que data do final do século X. Falavam galego Dom Afonso Henriques e a sua mãe Doña Teresa de León. Só aos poucos, nos séculos seguintes à Independência, os idiomas  foram sofrendo mudanças, afirmando-se o português como língua universalizada, a partir do século XV, presente praticamente em todos os pontos do planeta. Da própria Europa, África e Ásia ao Novo Mundo, que era o Brasil. Sofreria, ao longo dos últimos seiscentos anos, um processo de castelhanização o galego das regiões ao Norte do Minho, formado pelas províncias de Pontevedra, La Coruña (ou A Coruña), Lugo e Orense (ou Ourense). O grande reencontro entre os antigos povos da Galécia do Norte e da Galécia do Sul começaria a se dar, gradual e lentamente, a partir da coroação na Espanha do atual Rei Juan Carlos I, que viveu parte da infância e adolescência em Cascais, nos arredores de Lisboa, fala perfeitamente o erudito português da velha metrópole imperial e aceitou que o galego passasse a ser um dos quatro idiomas oficiais da Espanha, juntamente com o castelhano, catalão e basco. Floresceu, desde então, o renascimento do galego e hoje a Região Autônoma da Galícia, com muito orgulho, integra, como membro observador associado, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, a CPLP, criada, oficialmente, em 1995. Portugueses e galegos, enfim, superados o imaginário da Batalha de São Mamede e a arrogância contra os pobres labregos dos personagens do autor poveiro, podem – e devem – conviver serenamente nas duas terras separadas pelo meu querido rio, que, numa margem, é Minho e, na outra, Miño.

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