Os 150 anos do Gabinete Português da Bahia

por Albino Castro

 (para PORTUGAL EM FOCO edição de 14 de março de 2013)

 A histórica comunidade lusitana de Salvador, capital por 214 anos do Brasil colonial (desde a  fundação, em  29 de março de 1549, como cidade-fortaleza, até 1763), comemorou, solenemente, como se deve, os 150 anos de fundação do querido Gabinete Português de Leitura, no último dia 2 de março, uma ensolarada manhã de sábado, claro, tipicamente soteropolitana, com uma Missa de Ação de Graças, rezada pelo padre Aderbal Galvão de Souza, pároco da Igreja de São Pedro, localizada no antigo Largo da Piedade, ao centro da cidade, em frente à instituição camoniana – separada apenas pelos jardins da praça. A celebração foi no esplêndido salão de honra em estilo arquitetônico neo-manuelina do próprio Gabinete, onde, na terça-feira, dia 5 de março, por iniciativa da Casa da Moeda do Brasil, aconteceu o lançamento da medalha do Sesquicentenário do Gabinete Português de Leitura. Os festejos, entretanto, tiveram início em outubro de 2012 – conforme aqui registramos na edição de PORTUGAL EM FOCO de 13 dezembro do ano passado. Vários eventos culturais foram promovidos em fevereiro – apesar do período carnavalesco que, desde o início dos anos 1970, paralisa por semanas a capital baiana. Destacamos, no último mês, as palestras do professor Pedro Cardim, abordando as relações da Bahia com a Corte de Lisboa nos séculos XVI e XVII, e da professora e historiadora Regina Anacleto, que coloca o Gabinete baiano como centro do ‘revivalismo português’ na antiga capital brasileira.

 O Gabinete baiano, criado em 1863, é primo-irmão, no País, do monumental Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, fundado em 1837, bem como do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, de 1855, Grêmio Literário de Belém do Pará, de 1867, Liceu Literário Português do Rio de Janeiro, de 1868, e Centro Cultural de Santos, de 1885. Os gabinetes, liceus e centros culturais, bem como as demais agremiações e entidades beneficentes,  como nos recorda, ensina e exalta, quase semanalmente, neste PORTUGAL EM FOCO, António Gomes da Costa, presidente do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, são parte do valioso legado deixado por milhões de portugueses que, desde a Proclamação da Independência, em 1822,  para cá vieram. Já não como colonizadores, porém, como emigrantes a viajar nos sufocantes porões das apinhadas terceiras classes dos paquetes que cruzavam o Atlântico, com saídas de Lisboa, a desembarcarem ao longo da costa brasileira, de Belém a Santos, sem regalias. Como os italianos, espanhóis, libaneses, alemães, sírios, poloneses, chineses, armênios, lituanos, japoneses, romenos e judeus. Estes provenientes de diferentes localidades da perversa diáspora hebraica, entre os quais, famílias originárias de Portugal, mas, ao fim da Idade Média, degredadas à Turquia dos sultões otomanos, como Senor Abravanel, o Sílvio Santos, maior estrela da televisão brasileira de todos os tempos, e à Rússia dos Czares, como o notável jornalista Alberto Dines, que dirigiu, entre os anos 1950 e 1970, o lendário Jornal do Brasil, seguramente, o melhor diário brasileiro – comparável em à época ao seu inspirador The New York Times.

 Cidade de arquitetura portuguesa, uma preciosa Lisboa desta margem do Atlântico, fundada pelo nobre lusitano Tomé de Souza, São Salvador da Bahia de Todos os Santos, que perdeu o ‘São’ e ‘Todos os Santos’, durante o século passado pelas influências agnósticas dos seguidores fraternos da Revolução Francesa, é a terceira metrópole brasileira e, no entanto, é a única das capitais das mais antigas províncias do País na qual os portugueses, há quase cem anos, deixaram de ser hegemônicos entre os imigrantes que lá ainda desembarcam em busca de oportunidades. O mercado dos secos e molhados, bem como dos supermercados, mercearias, mercadinhos, padarias, restaurantes e bares, controlados pelos portugueses no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Belém, estiveram, na Bahia, praticamente por todo o século XX sob o comando de espanhóis da Galícia – região Ibérica, berço do idioma português, que hoje, merecidamente, integra a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), juntamente com Portugal, Brasil, Moçambique, Angola, Macau, Guiné-Bissau, Goa, Cabo Verde, Timor Leste e São Tomé e Príncipe. A emigração lusitana para a Bahia diminuiu tanto nos últimos oitenta anos que a pequena comunidade existente em Salvador não conseguiu manter em funcionamento o Clube Português, na Praia da Pituba, confiscado em 2001 pela prefeitura da capital baiana sob alegação de dívida fiscal. O extraordinário Gabinete, único palácio neo-manuelino de Salvador, só pôde comemorar os 150 anos graças a abnegados, como diretor de Patrimônio da entidade, o arquiteto Abel Travassos, nascido em Coimbra, que se bate, no dia-a-dia, pela preservação do tesouro do século XIX.

 A gozar de boa saúde, entretanto, está o Hospital Português da Bahia, fundado em 1857, seis anos antes do Gabinete, e que, ao longo de 156 anos, tornou-se um dos melhores centros médicos do Brasil. Foi lá que nasci. Mas foi no Gabinete que aprendi a amar as letras.

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