Fotógrafa produz imagens da greve dos caminhoneiros que revelam o cotidiano do movimento

Karol Moraes, de apenas 23 anos, acompanhou o bloqueio dos caminhoneiros em Itaboraí, e o resultado foram belíssimas fotografias.

Estudante dos cursos de jornalismo e filosofia, a jovem Karol Moraes nasceu na baixada fluminense e teve seu primeiro contato com a fotografia aos 8 anos. Atualmente, trabalha como colaboradora de mídias independentes apartidárias, cobrindo jornalismo de protestos e situações de conflito. O objetivo principal do seu trabalho é denunciar, através dos registros fotográficos, a violência de Estado.

Karol ainda atual pela mídia independente “DisparadorA”, na qual publica as imagens que consegue produzir em protestos e manifestações de diferentes categorias. “Também exponho os registros das reportagens em eventos abertos, vendendo fotografias a preço de custo para continuar movimentando e as pessoas conseguirem ter acesso ao trabalho que lhes é dedicado”, explica a fotografa que também já atuou como redatora, diretora de fotografia e criadora de conteúdo para sites, revistas e outros impressos.

A jovem esteve com os caminhoneiros durante 3 dias, em Itaboraí, e suas fotografias expressam o mesmo sentimento que ela pode captar do movimento grevista: a “simplicidade, honestidade e amizade” compartilhada pelos trabalhadores e as pessoas que transitavam por alí.

Gentilmente, Karol Moraes nos concedeu uma entrevista falando um pouco de seu trabalho e dos momentos que esteve presente na greve dos caminhoneiros. Também nos cedeu algumas das belas imagens que compartilhamos nessa reportagem. Confira na íntegra!

Chico da Boleia: Karol, como você começou a fotografar?

Karol Moraes: Aos oito anos eu tive meu primeiro contato com a fotografia analógica, remexendo câmeras velhas da família, tirava fotos de miudezas do quintal e minha gata Gotinha posava pra mim. A câmera de filme foi um dos meus primeiros descobrimentos e gosto de ter câmeras analógicas até hoje. Meu contato com a fotografia foi desde cedo, mas no processo político de 2013 comecei a entender a importância de registrar aquilo que eu via. A fotografia como potencial de testemunhar e contar a história que realmente importa que é a de quem sofre violência do Estado e capital, perseguição política, criando novas narrativas e, mais que isso, pautando as pessoas, sendo a mídia que se espera.

Saía pra rua com minha câmera minúscula e estava junto de jornalistas experientes cena a cena, alguns ficavam meio bravos comigo porque eu realmente chegava perto, participando das ações, enquanto “profissionais” mantem uma certa margem e muitas vezes eu não conseguia fazer a foto porque participava. Eu via as matérias da grande mídia e as denúncias não eram as mesmas que as minhas e eu publicava incessantemente no meu perfil pessoal, as pessoas pediam pelas fotos durante e depois dos protestos e eu ficava incentivando as pessoas a irem de encontro.

A cada foto que eu fazia era pra mim uma vitória nossa, eu realmente me empolguei com as ações de rua e o material que estava produzindo, tanto que não parei. Desde então eu fico revivendo 2013 nas insurreições, certo que é diferente toda vez, mas gosto de estar presente desde o primeiro estopim de iniciativa, porque em 2013 houve muita resistência tocada por poucas pessoas e laços bonitos na luta até hoje.

CB: No que consistem os projetos “Retina Insurgente” e “DisparadorA”, para os quais você colabora?

KM: “Retina insurgente” são minhas memórias. Inventei a “Retina” que é insurgente porque é revoltada e não está sozinha, por isso surgiram essas memórias tão coletivas e de múltiplas cores, que são basicamente meus retratos de rua e os conflitos que eu tenho emergência de participar. Sempre ressurgia essa ideia de criar algo que tivesse múltiplas mãos mexendo, fazendo, criando, que precisávamos criar “nossa máquina de guerra”, a “DisparadorA” cria suas próprias narrativas antiautoridade, é insurrecionária porque está junto das insurreições populares, radicais ou não, mas sempre evidenciando a radicalidade, desconstruindo o “ilegal”, falando de autonomia.

CB: Que outros movimentos sociais você pode acompanhar como fotógrafa?

KM: Todas as minoridades; movimento das favelas; movimento dos negros por autonomia e contra o genocídio, movimento das mulheres e crias pelo aborto, contra o feminicídio e o patriarcado; dos trabalhadores da saúde pela defesa do SUS; dos estudantes secundaristas; dos professores e servidores; dos cotistas; dos imigrantes; movimento de despenalização e a favor da legalização de todas as drogas; contra o encarceramento em massa; pela defesa da soberania alimentar; pela demarcação de terras indígenas e o retorno dos índios às suas terras espoliadas; pela vida e respeito à soberania dos índios; movimentos contra o controle sobre nossos corpos; movimento de pessoas não binárias; pela vida de pessoas LGBTQ.

Também acompanhei movimentos de desobediência civil e pela expropriação de terras sobre a exploração agrária; ocupações de espaços urbanos e rurais, de praças, fábricas, empresas, instituições; pela defesa dos animais; pela conquista, defesa e resistência da moradia; contra os megaeventos; contra a política partidária; contra a bancada evangélica; contra o Estado e o Capital; movimento de mães vítimas de violência policial; contra as polícias e a violência policial; movimentos antiautoridade; movimento de trabalhadores autônomos contra a guarda-municipal, roubo de carrocinhas e materiais e outros abusos de poder; dos trabalhadores do campo; pelo direito à terra, permacultura.

Cobri movimentos que defendem a soberania energética contra o saque dos Estados Unidos e Europa; pela defesa da água; resistência dos povos da América Latina; pela defesa da Palestina; a favor de guerrilhas urbanas autônomas tais como Rojava; contra a escolarização e o apagamento de culturas e revoluções; pela emancipação dos povos contra o monopólio da igreja; contra o monopólio sobre o culto religioso, sobre o corpo e mente. Resumindo, todas as lutas que eu souber eu estou lá!

CB: Você tem algum objetivo principal ou busca enquadrar determinadas ações/cenas quando se propõe a fotografar movimentos?

KM: Quando estou na rua tento sentir a energia e a vibração do que está acontecendo antes de começar a fotografar. Claro que com a lente sempre à mão.

Adoro fotografar pessoas, registrar suas passagens naquele momento que estão vivendo, suas emoções, mas claro que, como fotojornalista, tenho que estar atenta aos detalhes para não perder nada.

CB: Antes de fotografar a greve dos caminhoneiros de 2018, já conhecia a categoria, ou já tinha tido outra experiência com esses trabalhadores?

KM: Eu viajo muito, e sempre que estou na estrada fico curiosa com os caminhoneiros, como interagem com outros veículos, nas paradas, mas nunca tinha tido um contato como tive agora. A possibilidade de estar ali, conversar e ouvir suas histórias foi realmente algo engrandecedor que vou levar pra vida.

CB: O que te levou a acompanhar o bloqueio dos caminhoneiros de Itaboraí?

KM: Me senti na obrigação comigo mesma de ir até lá ver o que realmente estava acontecendo. Sabe como é hoje em dia, pela internet falam de tudo, eu precisava saber a verdade, queria registrar e poder passar o que estava acontecendo para outras pessoas entenderem melhor e não ficarem supondo, inventando ou repassando boatos.

CB: Você esteve com eles quantos dias?

KM: Fiquei por 3 dias, no quarto dia quando cheguei eles já tinham sido expulsos pela Polícia Federal e pelos militares, restaram alguns poucos que me contaram o que tinha acontecido. Uma pena! Mas eles são muito guerreiros, foi a primeira vez que vi tanta gente de uma mesma classe trabalhadora se unir e ficar tantos dias acampados na rua por uma causa.

CB: Quais experiências puderam ser compartilhadas?

KM: A simplicidade, honestidade e amizade foram muito fortes, estávamos juntos, sabe? Eles me contaram muitas de suas histórias, pude entender melhor o estilo de vida e também como é viver com essa profissão.

CB: Quais suas impressões do movimento dos caminhoneiros?

KM: Hoje eu tenho opinião formada pela minha experiência, não foi ninguém que me contou nem uma mídia que escreveu ou passou sua informação na tv. Eu vi e sei o quanto essa classe luta e sofre pra conseguir sobreviver. Assim como outros trabalhadores do mundo, só querem melhores condições de trabalho, dignidade.

Minha impressão é que a diferença deles pra maioria dos outros trabalhadores é que eles tiveram a coragem de parar por dias e o mais bacana, foi um movimento horizontal, sem partidos, sem lideranças. Eles decidiram, se organizaram, foram lá e mostraram pro mundo sua força. Um exemplo que todos deveriam seguir pra ajudar a melhorar o mundo.

CB: Algum momento em específico que quer compartilhar conosco sobre a greve dos caminhoneiros e/ou sua experiência nela?

KM: São muitos momentos, ver as famílias ligando, pessoas passando pra dar um apoio nem que fosse com uma jarra de café, caminhoneiros cansados e com saudades de seus familiares…

CB: Sua concepção da categoria mudou depois de acompanhar o movimento? Como você vê os caminhoneiros hoje?

KM: Não digo que mudou porque não sou uma pessoa preconceituosa, pelo contrário, mas que a ideia do que penso sobre eles agora está melhor formulada na minha cabeça. Eles são trabalhadores, são pessoas comuns, como todos nós.

Tem gente que se acha diferente, melhor que os outros, e neles eu pude perceber que isso não existe. Ficou em mim algo precioso que me foi passado: o ensinamento da estrada pra vida.

Só tenho a agradecer por tudo e torço muito por eles!

Por Larissa Jacheta Riberti / Chico da Boleia | Fotografias por Karol Moraes / @retinainsurgente / disparadorA

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