Em meio a safra recorde, custo do transporte aumenta 70%

No momento em que o país começa a colher a maior safra de sua história — 185 milhões de toneladas de grãos e oleaginosas, 11% a mais que a safra anterior —, os produtores se deparam com a disparada do preço do frete para o transporte rodoviário dos produtos agrícolas. Só na última semana, o valor subiu entre 20% e quase 70%, dependendo da região.

Quem pagou na semana passada R$ 80 por tonelada para escoar a produção agrícola de Campo Verde ao terminal ferroviário de Alto Taquari, no Mato Grosso, agora precisa desembolsar R$ 135 por tonelada, uma alta de 68%. Também em uma semana subiu 20% o preço do frete no trecho Sorriso (MT) a Paranaguá (PR) e Sorriso a Santos (SP), segundo Cleber Noronha, analista do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

O instituto estima que, só em Mato Grosso, a variação do preço do frete neste ano possa dobrar em relação aos 35% de aumento registrado no ano passado. O custo do frete vem engolindo o ganho do produtor com a venda do seu produto. Considerando as cotações atuais da soja em Mato Grosso, por exemplo, o custo do transporte representa 23%, em média, do valor pago pela commodity — ante 20% em fevereiro de 2012.

Preço da soja cai
No Paraná, outro estado com forte peso na produção de grãos no país, o custo do frete quase dobrou no caso da soja. No ano passado, cerca de 8% a 10% do valor da produção era destinado a bancar o transporte. Neste ano, esse percentual subiu para 15%, pelas contas da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar). No caso do milho, o peso passou de 12% para 20%.

— Além do aumento do preço do frete, os preços pagos pela soja e o milho caíram, devido ao aumento da produção. O produtor, que recebia R$ 65 pela saca de soja no ano passado, hoje recebe entre R$ 50 e R$ 55 — explicou Nelson Costa, superintendente-adjunto da Ocepar.

Sem carretas na estrada
Além da demanda extra decorrente da safra maior, o recente reajuste do óleo diesel, a entrada dos novos motores que utilizam o diesel S50 (com preço mais alto) e os efeitos da chamada “Lei do caminhoneiro” (lei 12.619, aprovada em abril de 2012) também explicam a alta no custo do transporte neste ano.

A lei regula o horário de trabalho dos motoristas de caminhões. Estabelece, por exemplo, um descanso de meia hora a cada quatro horas rodando na estrada. Após uma jornada de 11 horas, é obrigatória uma parada de 24 horas. A consultoria Datagro estima que as novas regras para os caminhoneiros tenham tirado das estradas até 500 mil carretas e, proporcionalmente, impactado os preços do frete em até 28%.

Para Marcos Jank, especialista em agronegócio e bioenergia e ex-presidente da Unica (que congrega as usinas de álcool e açúcar), o peso do frete pode chegar a 40% do valor da produção de soja, dependendo da região do país. No caso do milho, o frete compromete 54% do seu valor. Segundo ele, na média, os preços do frete devem ficar entre 25% a 50% mais altos neste ano para o agronegócio brasileiro.

Pelos dados oficiais, o país é o hoje o maior produtor (84 milhões de toneladas) e exportador (41 milhões de toneladas) mundial de soja. O Brasil também tomou dos americanos a posição de primeiro exportador mundial de milho (com 25 milhões de toneladas, contra 23 milhões nos EUA).

— O sentimento é que, com o pico da safra e os caminhões produzindo menos, o frete aumente ainda mais nos próximos meses — afirmou Neuto Gonçalves dos Reis, diretor da Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC).


Fonte: O Globo

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