Agosto Laranja: especialista explica o que é a esclerose múltipla

Para entender o que é esta patologia e como pode ser diagnosticada, o Chico da Boleia conversou com um especialista no assunto. (Foto: divulgação)

Agosto Laranja: especialista explica o que é a esclerose múltipla

Neurologista concede entrevista ao Chico da Boleia e esclarece questões ligadas a doença autoimune

No dia 30 de agosto, comemora-se o dia Nacional de Conscientização da Esclerose Múltipla. Durante todo o período, são realizadas campanhas e ações para orientar a população sobre a doença e desmistificar algumas questões a respeito da E.M. Para entender o que é esta patologia e como pode ser diagnosticada, o Chico da Boleia conversou com um especialista no assunto.

– A esclerose múltipla é considerada uma doença autoimune e desmielinizante do sistema nervoso central. Ou seja, autoimunes são todas as doenças geradas por uma reação inflamatória contra nosso próprio organismo. No caso do lupos, por exemplo, essa agressão é contra a pele, as articulações, contra os rins e pulmão – explica dr. Denis Bernardi Bichuetti, neurologista e especialista em esclerose múltipla, e professor adjunto de neurologia da Universidade Federal de São Paulo.

Segundo o especialista, é ainda desmielinização porque afeta um componente do sistema nervoso chamado mielina – uma capa que recobre nossos nervos e, toda vez que é danificada, há uma dificuldade de transmissão de impulsos neurológicos.

– Essa agressão autoimune inflamatória gera danos a mielina e sintomas. Por exemplo, se afeta a mielina que vai para os olhos, o paciente tem perda visual. Tais agressões inflamatórias e sintomas ocorrem durante crises, que podem durar entre quatro a oito semanas e depois melhoram espontaneamente, o que muitas vezes faz com que a gravidade da situação passe despercebida, podendo ainda ser confundida com outras patologias – ressalta Bichuetti.

Ainda de acordo com o especialista, os sintomas iniciais aparecem em episódios esporádicos que duram algumas semanas e melhoram, e que provocam visão embaçada, perda de equilíbrio, formigamento das mãos e dos pés, perda de força, dentre outros, agravando-se com o tempo e podendo ainda provocar sequelas.

Questionado sobre a forma de diagnóstico, dr. Denis explica que, quando o paciente procura um especialista, a detecção é feita facilmente – se há a presença dos sintomas e, desde que determinadas alterações nos reflexos, força e visão possam ser identificadas durante o exame clínico. “Trabalhamos ainda com a ressonância magnética, um exame de líquido da espinha (dependendo do caso) e exames de sangue, para ter certeza que não há sinais de outras doenças com sintomas semelhantes”. Com isso, fecha-se o diagnóstico de esclerose múltipla.

Vale ressaltar que um dos fatores que pode atrasar a identificação da doença é a falta de acesso aos exames, como no caso do SUS, onde uma autorização para a realização de ressonância pode durar meses. Há ainda a possibilidade do neurologista não estar apto para a identificação dos primeiros sinais da esclerose múltipla, confundindo-a com outras patologias e tratando apenas o sintoma principal. Por isso é essencial buscar um especialista.

– A esclerose múltipla não é hereditária, mas a pessoa pode herdar um certo risco, já que existem mais de 100 alterações genéticas que podem facilitar o acontecimento da doença. O grupo mais afetado pela patologia é de caucasianos (homens e mulheres brancas), de origem europeia ou americana. E é por isso que a prevalência de esclerose múltipla nessas regiões é de, aproximadamente, de 80 casos para 100 mil habitantes. Já no Brasil, os dados são de 30 para 100 mil, devido á miscigenação genética, fazendo com que o risco da doença seja menor – destaca

Entretanto, uma variante da doença chamada neuromielite óptica – Doença de Devic – apresenta maior prevalência em grupos de negros e asiáticos. E, por isso, ela existe mais no Brasil do que em outros lugares do mundo, em função da miscigenação.

O paciente diagnosticado com esclerose múltipla pode – e deve – levar uma vida normal, desde que siga o tratamento de acordo com as orientações médicas, faça os exames regularmente, siga uma rotina de exercícios físicos e alimentação saudável, que o deixarão preparado para o futuro. “Hoje em dia existem medicamentos que estabilizam a doença, mas ainda há casos nos quais é identificado o avanço da patologia, apesar do tratamento contínuo”, destaca o especialista.

– Infelizmente, não há cura para a esclerose múltipla. Mas existem alguns medicamentos no mercado que podem ser considerados “quase” um cura, sendo que alguns – cada qual com sua proporção para pacientes individuais – podem interromper a progressão da doença em 30%, 50%, 60% e 80% dos casos. E essa porcentagem varia de acordo com a potência do medicamento e, consequentemente, há também o aumento das reações colaterais – explica dr. Denis.

Vale ressaltar que o tratamento é variável – entre injeções e comprimidos – orientado segundo o nível da esclerose múltipla do paciente (quantos surtos teve, como estão os exames, etc) e também por questões individuais.

No site da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (Abem) é possível encontrar mais detalhes sobre a esclerose múltipla, basta acessar: www.abem.org.br.

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