A glória de Timor Leste

por Albino Castro

 A lusitaníssima república de Timor Leste é um minúsculo enclave católico, com pouco mais de 1,1 milhão de habitantes, no Sudeste asiático, localizada na parte ocidental de uma das 17.508 ilhas do arquipélago que forma a Indonésia, país com maior número de muçulmanos do mundo, com população de cerca de 240 milhões, e independente da Holanda desde 1949. Às vésperas de festejar os onze anos de recuperação da soberania, que ocorrerá no próximo dia 20 de maio, os timorenses se preparam, com pompa e circunstância, com razão, para assumir em 2014 a presidência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com apoio de Portugal, oficializado quando da visita do Presidente Aníbal Cavaco Silva ao Timor Leste, no ano passado, e com a simpatia dos demais membros do organismo – inclusive do Brasil e de Angola. Longínqua e pequenina pátria da língua de Luis de Camões, uma preciosa jóia dos versos lusíadas de nosso comum idioma, Timor Leste muito se bateu e sofreu para preservar, entre 1975 e 2002, a fé católica, diante do dominador indonésio islâmico, e a continuar, sim senhor, a falar o português suavizado pela distância da metrópole de Lisboa, aliás, como nós, no Brasil.

Durante os séculos XV e XVII, com os Reis da Casa de Avis, Era do grande esplendor de Portugal em todo o planeta, o que hoje conhecemos como Timor Leste era apenas uma simples localidade periférica do imenso Império Português do Oriente, com sede em Goa, na Índia, e em Macau, na China, que controlava as duas margens do Oceano Índico – e com presença, inclusive, no Japão, na própria Indonésia, Malásia, que sempre teve influência na vida timorense, e, no Golfo Pérsico, em Ormuz, hoje integrado ao Irã.  O ‘desaparecimento’ de Dom Sebastião, em 1548, na Batalha dos Três Reis, na planície marroquina de Ksar El-Kibir, levaria também à derrocada, dois anos depois, a Casa de Avis, pois, como se sabe, Portugal passaria a fazer parte durante 60 anos do Império de Espanha – perdendo no período quase todos os territórios que restavam na Ásia e, inclusive, parte do Nordeste brasileiro para os holandeses – estes também conquistariam o arquipélago indonésio. Restaria em 1640 à Lisboa restaurada, na Indonésia, apenas Timor Leste, negociado sob concessão com a Holanda, que, por sua vez, havia desistido do Nordeste do Brasil e de Angola.

Timor Leste esteve sob controle português por 460 anos, de 1515 a 1975, quando se tornou independente, porém, dois meses depois, foi invadido pelas forças da Indonésia e enfrentou 27 anos de luta até recuperar a soberania. Mesmo sem liberdade, a nação possuía já dois grandes ilustres líderes admirados universalmente, José Ramos-Horta, que hoje tem 63 anos, ex-presidente e ex-primeiro ministro do país, e Dom Carlos Filipe Ximenes Bello, de 64 anos, arcebispo de Díli – vencedores ambos, em 1996, do Prêmio Nobel da Paz pelo trabalho em prol de uma solução justa e pacífica para o conflito no antigo território denominado por séculos de Timor Português. O lado Oeste da ilha era o antigo Timor Holandês. Timur, que chamamos de Timor, significa Leste no idioma indonésio. Timor Leste, portanto, é, a rigor, uma redundância, ou seja, Leste Leste… Os timorenses atribuem historicamente a formação da nação aos evangelizadores dominicanos e jesuítas portugueses que, como no Brasil, fundaram cidades e converteram a população ao catolicismo  – enquanto os holandeses permitiram a expansão do islamismo. Timor Leste tem padroeira, a Nossa Senhora de Aitara, virgem reverenciada até mesmo pelos muçulmanos e tão venerada como Nossa Senhora de Fátima ou Nossa Senhora de Aparecida.

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