470 anos da chegada ao Japão

por Albino Castro

(Edição de 7 de novembro de 2013 de Portugal em Foco)

Um dos marcos deste 2013, no universo lusófono, foram os festejos de Portugal e Japão, ao longo de todo o ano, com olhar voltado para o futuro, pelos 470 anos da chegada ao arquipélago nipônico dos navegadores lusitanos, em 1543, com calendário de eventos nas duas metrópoles imperiais, Lisboa e Tóquio, bem como em Boston, nos Estados Unidos, que, em fevereiro, reverenciou, com uma preciosa exposição, a mágica arte Namban, simbiose artística de dois países tão distantes – o primeiro, localizado no ponto mais ocidental da Europa, e o outro, na extremidade da Ásia. Namban significa ‘bárbaros do Sul’ e era assim que os japoneses chamavam os portugueses. Estes foram os primeiros europeus que desembarcaram, nos primórdios da Idade Moderna, na nação do Sol Nascente, onde, para além de produzirem uma mágica arte comum às culturas dos dois povos, com o forte comércio iniciado entre Lisboa e a cidade portuária de Tanegashima, fundaram, em 1570, a célebre Nagasaki, importantíssima cidade japonesa, e, com os jesuítas de São Francisco Xavier (1506 – 1552), converteram várias populações do arquipélago, principalmente, ao Sul do país. Os Estados Unidos despejaram sobre Nagasaki e Hiroshima, quase ao final da Segunda Guerra, em 1945, bombas atômicas que devastaram as duas cidades e que, até hoje, os habitantes locais sofrem trágicas conseqüências. O Japão, do então Imperador Hiroito, era aliado da Alemanha nazista, do Führer Adolf Hitler, e da Itália fascista, do Duce Benito Mussolini.

 Nagasaki e Tóquio têm destinos cruzados. A primeira, fundada pelos jesuítas, como São Paulo, maior metrópole de língua portuguesa do mundo, fascinaria, a propósito, o escritor francês Pierre Loti (1850 – 1923), que lá residiu em 1885 e onde casou-se por alguns meses com uma japonesa, que o inspirou a escrever o festejado romance Madame Chrysanthème. Já Tóquio havia sido fundada 96 anos antes do desembarque dos portugueses em Tanegashima e só em 1868 passou a ser a capital do Japão. Foi nos arredores de Tóquio, na cidade de Hamura, que aconteceram as comemorações mais significativas dos 470 anos da chegada dos portugueses ao país. Durante todo o mês de setembro várias mostras estiveram em cartaz, inclusive, entre os dias 19 e 28, uma coleção de azulejos de inspiração portuguesa do artista japonês Jun Shirasu, intitulada Arte do Azulejo – Mundo Azul e Branco. Entre as obras exibidas, com destaque, pôde ser contemplado o magnífico mosaico de 147 peças feito especialmente para a estação ferroviária da cidade de Palmela, distrito de Setúbal, ao Sul de Lisboa, no qual, a usar o clássico azul e o branco da azulejaria portuguesa, o ceramista japonês parece evocar várias situações do mágico mundo dos caminhos de ferro. Nascido em 1965, em Tóquio, Jun Shirasu, de 48 anos, foi o vencedor, em 2010, do Prêmio Joana Abranches Pinto, atribuído pela Embaixada de Portugal no Japão – tendo sido graduado em Arte pela universidade de sua Tóquio natal, com estudos realizados também em Londres e Praga. Já a mostra de setenta obras apresentadas pelo Museu McMullen de Arte do Boston College se intitula Portugal, os Jesuítas e o Japão: Crenças Espirituais e Bens Materiais e fora exibida, anteriormente, entre 2010 e 2011, na capital portuguesa, pelo Museu do Oriente. São ricos trabalhos que ilustram os encontros dos japoneses com comerciantes portugueses e missionários jesuítas, durante os séculos XVI e XVII – conforme definição dos próprios idealizadores da exposição.

Foi justamente no período da exposição realizada em Lisboa que aconteceu um episódio muito curioso – viajávamos por Portugal eu, a minha esposa, Andrea, e a irmã dela, Maria. Era dia 26 de dezembro de 2010, e estávamos a almoçar na minha querida cidade do Porto, à região do cais da Ribeira, na Rua dos Canastreiros, no restaurante Chez Lapin, literalmente, a Casa do Coelho, que, apesar do nome francês e do aspecto de cantina italiana, come-se tipicamente à portuguesa, quando entrou no restaurante um casal de jovens turistas japoneses que sentou numa mesa ao lado da nossa. Os dois chegaram quando conversávamos sobre as palavras de nosso idioma português que estão incorporadas ao japonês – como, entre muitas outras, biscoito, botão, capa, copo, órgão, pão, sabão e tabaco. A minha cunhada parecia duvidar que tantas palavras lusitanas tivessem sido adotadas no Japão. Pedi então ao empregado de mesa que nos atendia para que, se faz favor, perguntasse ao casal, em inglês, a apontar para a cestinha de pães, como se chamava bread no idioma deles. O rapaz pareceu não entender, mas a moça respondeu “pão”… Depois, o funcionário do restaurante, apontou para o copo – “copo”, balbuciaram os dois. E door? Disseram door é door mesmo…. Mesmo? A moça então disse “porta”. Perguntamos, ainda, sempre em inglês, se falavam ou entendiam português. Disseram que não – “only english, sorry”, ou seja, só inglês, desculpe. E deixamos o casal almoçar em paz.

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