DIA 20 DE NOVEMBRO DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Chico da Boleia no Quilombo dos Palmares

O dia de hoje também poderia ser chamado de DIA DA CONSCIÊNCIA DA LIBERDADE, mas alguns amigos do movimento negro podem ficar insatisfeitos, pois podem achar que seria uma maneira de tirar a importância de se pensar conscientemente sobre a raça negra. A importância está implícita na própria história, por isso quero aproveitar a data e discutir um dos maiores problemas da nossa sociedade: o preconceito reinante e a resistência da maioria da população em dizer que ele não existe.

O preconceito se perpetua às vezes de maneira velada, às vezes descaradamente. Observem o comentário de alguém que se diz sem preconceito: “Veja bem, eu tenho até amigos negros”.  Outro comentário: “se olhar meus antepassados tenho até um pé na cozinha”. Tais afirmações, juntamente com outras tantas, são a maior expressão de que o brasileiro segue preconceituoso e segregando a população racialmente.

Os dados apontam que a desigualdade racial também marca a desigualdade social. A abolição dos escravos, em 1888, não garantiu aos negros a devida inserção no mercado de trabalho. Segregados por sua cor e excluídos dos meios de trabalho, os negros não conseguiam emprego durante as décadas iniciais do século XX. Dessa forma, ficaram às margens da sociedade e com poucas chances de se desenvolverem social e economicamente.

Ao longo dos anos, com a promoção e a falta de combate ao preconceito, grande parte da população negra foi marginalizada pela economia, pelos programas sociais e pela sociedade. Estigmatizados por séculos de escravidão, os negros, já libertos, tinham dificuldades de encontrar meios sociais para se desenvolverem, formando, assim, parte também das parcelas pobre e miserável da população brasileira. Tal fato nos leva à conclusão de que até hoje, os negros não possuem direitos iguais na nossa sociedade.

A exclusão e a marginalização de grande parte dos negros podiam (e podem) ser identificadas no preconceito que eles sofriam (e ainda sofrem) ao entrarem em um ambiente majoritariamente frequentado por brancos, ou ao participarem de uma entrevista de emprego, por exemplo. Basta atentarmos para a forma como a mídia representa o negro na televisão, nos jornais, no rádio. Em qualquer novela podemos notar que grande parte das empregadas domésticas, porteiros e bandidos, são representados por atores negros.

Atualmente, o racismo e a segregação levam à violência contra a população negra. Basta andar a noite para ver quantos brancos são abordados para averiguação pela polícia e quantos negros sofrem, muitas vezes, abordagens violentas e acusatórias. É um grande absurdo alguém dizer que não existe o preconceito de cor! Ele não só existe como tem que ser combatido! Existem os que enchem a boca para dizer que no Brasil não vivemos com preconceitos raciais. Devemos fazer esta pergunta aos nordestinos, aos judeus, aos orientais, aos latinos que aqui vivem, e teremos uma surpresa desagradável. O Brasil vende a imagem de que somos o país das diversidades, mas notamos todos os dias que, aqui, as oportunidades não são iguais para todos.

O Dia da Consciência foi estabelecido pelo projeto Lei Nº 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. Foi escolhida a data de 20 de novembro, pois foi neste dia, no ano de 1695, que morreu Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares.

A homenagem a Zumbi foi mais do que justa, pois este personagem histórico representou a luta do negro contra a escravidão, no período do Brasil Colonial. Ele morreu em combate, defendendo seu povo e sua comunidade. Vale lembrarmos também de outras personalidades como Ganga Zumba, Dandara, Acotirente, Andalaquituche, Aqualtune, Gana Zona, Ganga Muiça, Acaíuba, Toculo que ali também tombaram.

O Quilombo dos Palmares foi o maior e o mais conhecido. Nele, os negros que fugiam das senzalas buscavam refugio. Os Quilombos eram áreas onde os negros escravos buscavam a liberdade e se organizavam para se defender e se esconder.

O Quilombo dos Palmares foi o maior e o mais conhecido. Nele, os negros que fugiam das senzalas buscavam refugio. Os Quilombos eram áreas onde os negros escravos buscavam a liberdade e se organizavam para se defender e se esconder.

Eu mesmo fiz uma visita a Serra da Barriga onde o Quilombo dos Palmares existiu no estado de Alagoas. A importância deste Quilombo se dá pelo tempo que ele perdurou, quase um século entre 1590 a 1680, e pelo número de habitantes, aproximadamente 30.000 pessoas.

Posso dizer que foi uma experiência muito forte! Senti ali a energia que emana do solo! Solo que foi banhado com sangue daqueles que lutavam por liberdade. Temos que entender que naquele período o movimento abolicionista não existia. Não existia um movimento político organizado contra a escravidão, pois a luta era pela sobrevivência e pelo direito de ser livre.

Por isso comecei este texto como Dia da Consciência da Liberdade. A escravidão remonta aos primórdios da civilização, e nem sempre esteve ligado à cor da pele, basta observar a historia. Para não ir muito além, no nosso Brasil os primeiros escravos foram os Índios, e depois os negros traficados da África.

Liberdade, difícil dizer que no mundo moderno, em plena era de tecnologias das mais variadas possíveis, ela exista. Vivemos em uma democracia, na qual, teoricamente, as liberdades de ir e vir estão garantidas. Na minha modesta opinião, estas liberdades não estão nem próximas de serem asseguradas.

Façamos a seguinte e simples analise, se uma mulher resolver usar um microvestido ou uma blusa decotada, qual rótulo ela vai receber? Será que ela poderá andar livremente pelas ruas sem ser acuada com uma abordagem violenta e intimadora da parte dos homens?

O Trabalhador, seja ele branco ou negro, que recebe salário mínimo, pode escolher o que vai comer ou onde vai residir?

A Mãe indígena tem as mesmas condições que a mãe branca de criar seus filhos?

A criança negra, no Brasil, cresce com as mesmas oportunidades que a criança branca? Para essa realidade, a UNICEF aponta que uma criança negra em nosso país tem 25% mais chance de morrer antes de completar um ano, do que uma criança branca. Será mesmo que todos nós nascemos sobre “berço esplêndido”?

Onde está a liberdade de existir, sobreviver e ter direitos iguais?

Ainda há pessoas, independente da cor, que estão vivendo em condições análogas a escravidão, e estamos no ano de 2012.

Peço licença à comunidade negra para que neste dia 20 de Novembro ampliemos nossa discussão sobre a liberdade e os direitos iguais, para que ambos deixem de ser figura de retórica e passem a existir de fato.

Como já disse o preconceito racial existe e está no dia a dia, mas a liberdade é o bem mais precioso da humanidade.

Devemos lutar em defesa não só da liberdade, mas também dos direitos iguais, em um movimento contínuo e gradual.

Liberdade, Respeito e Direitos Iguais ao Negro bem como a todas as raças que povoam o mundo!

Chico da Boleia

Orgulho de ser Caminhoneiro

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